A história de uma gigante estação de ondas curtas no Alaska

16 03 2019

Adrian M. Peterson

As obras de construção de uma estação de ondas curtas no Alasca começaram no ano de 1993. A localização desse enorme projeto foi em uma base da Força Aérea Americana em um local isolado perto de Gakona, a quase 320 quilômetros ao nordeste da capital do estado de Anchorage.

O projeto desta gigantesca estação de ondas curtas, o HAARP (High-Frequency Active Auroral Research Program, ou Programa de Pesquisa Auroral Ativa de Alta Freqüência), demandou 360 transmissores de 10 kW cada e 180 mastros de antena, todos instalados de forma compacta em um terreno quadrado de 30 acres.  Os transmissores da Continental foram agrupados em pares em recipientes especiais com temperatura controlada e à prova de intempéries. Os mastros de antena suportam um total de 720 antenas de ondas curtas de banda baixa e banda alta.

Este caro projeto foi construído em três fases separadas a um custo inicial de US$ 30 milhões. Um sistema de supercomputador adicional custou US$ 25 milhões e os custos operacionais foram estimados em US$ 30 milhões.

A primeira fase da construção foi concluída em 1998, e uma fase secundária quatro anos depois. Toda a instalação foi finalmente e totalmente concluída em 2007; 6 anos depois, o HAARP Alaska foi encerrado.

As transmissões de teste iniciais ocorreram em 8 de março de 1997 em 3400 kHz e 6990 kHz com uma portadora aberta e mensagens em código Morse. Esses testes foram anunciados com antecedência e cartões QSL especiais foram disponibilizados.

Outra série de testes ocorreu dois anos depois, em 27 de março de 1999, e um radioescuta que estava em Londres, na Inglaterra, relatou que, mesmo com o sinal total de 3,6 megawatts, o HAARP não era audível no Reino Unido.

Em janeiro de 2008, o HAARP realizou uma série adicional de dois dias de testes transmitidos para a lua. Estas transmissões foram notadas em duas frequências de ondas curtas, 6792,5 kHz e 7407,5 kHz.

O objetivo do HAARP Alaska era estudar o impacto da potência maciça irradiada no céu, com a possibilidade de controle da ionosfera e anulação de sinais de rádio recebidos de outros países. Muita especulação sobre o projeto HAARP sugeriu que os padrões climáticos poderiam ser alterados, uso na detecção de padrões subterrâneos e comunicação com submarinos profundamente submersos.

No entanto, as autoridades do governo têm sido bastante abertas sobre as atividades associadas ao seu projeto, e eventos de visitação pública com visitas guiadas têm sido realizados periodicamente. O conhecido radioamador e autor de livros sobre o assunto, Gordon West WB6NOA, fez uma visita de inspeção em Setembro de 2001, aparentemente em uma tentativa de dissipar as teorias de conspiração que abundam sobre a estação. Ele afirmou em um artigo na revista Popular Communications que normalmente a estação não pode ser ouvida em receptores de ondas curtas regulares porque os transmissores operam com uma técnica de salto de frequência, que é uma mudança rápida e contínua delas.

A propriedade das instalações do HAARP foi recentemente transferida para a Universidade do Alasca em Fairbanks e os planos estão em andamento para reabrir esta estação transmissora e realizar experimentos adicionais de propagação. A FCC emitiu duas licenças de transmissão para o centro transmissor revitalizado. O indicativo WI2XFX permite transmissões experimentais em sete bandas intermediárias no espectro de ondas curtas, e o WI2XDV permite transmissões experimentais que variam de 1 MHz até 40 MHz.

Há alguns anos, um total de 720 válvulas de transmissão foram removidas dos 360 transmissores e colocadas em armazenamento aquecido por segurança, e atualmente a equipe está no processo de reinseri-los de volta em cada unidade transmissora.

Curiosamente, o HAARP não é a única instalação de ondas curtas para pesquisa ionosférica. Sabe-se que outras instalações similares, embora menores, estão localizadas em Fairbanks, no Alasca, e também em Porto Rico, bem como em Tromso na Noruega e Vasilsursk na Rússia.

O cartão QSL emitido pela HAARP apresenta uma foto em cores que mostra parte de seu enorme sistema de antenas.

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O rádio no interior da Austrália – parte 2

10 03 2019

Adrian M. Peterson

Ouvinte de ondas curtas do mundo todo reagiram positivamente com as notícias de que três estações de ondas curtas do Território do Norte não encerraram as transmissões permanentemente. Os transmissores que levam ao ar a programação da ABC às comunidades esparsas de áreas desérticas da Austrália voltaram ao ar no dia 13 de Setembro às 09:00 (horário de Sydney). Vários monitores reportaram a escuta dessas estações reativadas.

Recentemente apresentamos um artigo sobre os primeiros anos das ondas curtas no interior australianoque tem sua origem há mais de cinquenta anos.

No início da década de 1970 passou a ser considerada novamente a possibilidade de estabelecimento de um serviço em ondas curtas regular para áreas esparsamente povoadas da Austrália e inicialmente um total de seis transmissores foram previstos. A meta seria o ano de 1971, e a localização dos outros três transmissores novos era a estação retransmissora da Rádio Austrália na Península Cox, no porto de Darwin.

Os transmissores de 100 kW foram adquiridos da Harris Gates nos Estados Unidos e armazenados na estação de ondas médias da ABC em Pimpala, na costa de Adelaide, no Sul da Austrália. Entretanto, no Natal de 1974, o ciclone Tracy destruiu boa parte da cidade de Darwin e danificou a estação da Rádio Austrália na região.

Assim, novamente a cobertura em ondas curtas do Território do Norte foi adiada. Um dos transmissores de Pimpala foi enviado temporariamente à estação da Rádio Austrália em Carnarvon, no Oeste da Austrália, onde foi ativado em 15 de Fevereiro de 1976 sob o indicativo VLL. Os dois restantes foram instalados em Shepparton, Victoria.

Alguns anos se passaram e outra tentativa de cobertura do Território do Norte em ondas curtas aconteceu. Em um estágio preliminar, um boletim diário de notícias de quinze minutos ia ao ar por meio do transmissor de comunicações de 500 watt de indicativo VJY em Darwin. O noticiário era uma retransmissão da estação da ABC 8DR desde Darwin em ondas médias, que ia ao ar duas vezes por dia, e o referido transmissor VJY estava localizado na estação de recepção da Rádio Austrália na Península Cox.

Para este projeto, três transmissores Continental de 100 kW modelo 418D-2 foram adquiridos e instalados em diferentes locais. Cada um foi preparado para operação remota a uma potência de 50 kW, em um canal durante o dia e outro à noite.

As localidades escolhidas foram cidades no Território do Norte: Alice Springs, no sul do estado, Tennant Creek, no centro e Katherine, no norte. As cidades eram ligas pela estrada Northern Territory Highway 87, Stuart Highway.

A primeira das estações deste serviço doméstico a entrar em serviço foi em Roe Creek, próximo a Alice Springs em 20 de Fevereiro de 1986. O transmissor VL8A, localizado próximo à Stuart Highway, no sudeste do pequeno aeroporto de Alice Springs fez a retransmissão de estação 8AL de Alice Springs.

No norte, a estação VL8K foi inaugurada em 3 de Abril do mesmo ano e o transmissor dividia espaço com uma unidade de 50 watt da emissora de ondas médias 8KN.  O centro transmissor foi instalado novamente junto à Stuart Highway, no lado leste, 11 quilômetros a noroeste de Katherine.

Na região central do país, um terceiro transmissor de ondas curtas foi inaugurado poucos dias depois, dividindo espaço com a estação de ondas médias 8 TC, que operava com 1 kW a partir do lado sul da Stuart Highway, a 8 quilômetros sudeste de Tennant Creek.

Além disso, um transmissor reserva de 10 kW seria instalado em cada uma das localidades para proporcionar cobertura de emergência em caso de falha no equipamento principal. Embora tais unidades tivessem sido planejadas originalmente, não há evidências de que foram instaladas.

O sistema de antena em cada estação era do tipo log periódica em V suportada por dois mastros. O ângulo de incidência era vertical, quase reto, contando assim com a ionosfera para atingir as áreas a sua volta.

Devido às temperaturas excessivamente altas nas áreas desérticas, os três transmissores apresentavam falhas de tempos em tempos. Assim após quase vinte anos no ar em condições extremas, todos os transmissores de ondas curtas do serviço doméstico passaram a ficar cada vez menos confiáveis e a substituição tornou-se necessária.

Notícias da época davam conta que transmissores croatas da empresa RIZ foram considerados, embora ao final unidades atuais da Continental modelo 418G com 100 kW substituíram as três originais para uso a meia potência. Cada estação foi desligada em rodízio durante um mês ou seis semanas, e durante este período a Rádio Austrália assumiu a cobertura, começando em 10 de Outubro de 2005. O transmissor de 100 kW desde Shepparton foi notado em 11880 kHz durante o dia e 6080 kHz à noite.

Os três transmissores de substituição entraram em operação entre Abril e Agosto de 2006. Uma unidade adicional foi instalada em Tennant Creek para operação em DRM em meados de 2011.

Dez anos depois do segundo conjunto de transmissores ser ativado, todos foram subitamente desligados no início de Setembro de 2016, embora fossem reativados quase duas semanas depois, em 13 de Setembro.

As três estações de ondas curtas do Território do Norte, VL8A Alice Springs 4835 kHz durante o dia e 2130 kHz à noite, VL8K Katherine 5025 kHz durante o dia e  2485 kHz à noite, e VL8T Tennant Creek 4910 kHz durante o dia e 2325 kHz à noite, retornaram para operação 24 horas por dia, e foram captadas diversas vezes em vários países do mundo. Entretanto, com o encerramento das transmissões da Rádio Austrália, todas essas emissoras regionais também foram descontinuadas, e embora existam movimentos visando o retorno é pouco provável que isso ocorra algum dia.

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O rádio no interior da Austrália

24 02 2019

Adrian M. Peterson

Durante os primeiros dias de Setembro de 2016, ouvintes de ondas curtas do mundo inteiro reagiram com choque e espanto ao anúncio de que as três estações de ondas curtas da ABC no Território do Norte da Austrália seriam abruptamente desligados. A informação vieram do conhecido dexista de Melbourne, Bob Padula, que a descobriu e repassou ao mundo via internet. A razão do encerramento seriam cortes orçamentários.

Entretanto, em um anúncio subsequente, foi informado que as estações VL8A, VL8K e VL8T seriam reativadas às 09:00 (horário de Sydney) do dia 13 de Setembro. Apesar do fato de que esta informação tenha sido tão bem-vinda quanto a anterior indesejável, questões não respondidas permanecem.

Ao que parece as três estações foram desligadas simultaneamente nos primeiros dias de setembro, e de acordo com observações a partir da Austrália e Nova Zelândia, permaneceram fora do ar.  A razão para o fim triplo das transmissões em ondas curtas foi o déficit orçamentário.

Será que isso foi fruto da reação de ouvintes até então ocultos de regiões desertas do centro da Austrália? Ou talvez a reação de um número grande de ouvintes internacionais que acabaram chamando a atenção das autoridades?

Em todas as ocasiões anteriores, seja de construção como de manutenção, cada uma das estações, cada uma das estações foi atendida geralmente de forma consecutiva, geralmente não simultaneamente, devido às longas distâncias envolvidas e à escassez de logística local e de pessoal. A distância entre as duas estações mais distantes, VL8K Katherine e VL8A Alice Springs ultrapassa os 1100 km. Isso sugere que dificilmente se trata de uma situação de manutenção. E mesmo se fosse, porquê não houve cobertura temporária da Rádio Austrália Shepparton como em outras ocasiões?

As três emissoras de ondas curtas no ar a partir do Território do Norte são: VL8A em Alice Springs, VL8T em Tennant Creek e VL8K em Katherine, cada uma operando com 50 kW. Estea rede regional de estações de ondas curtas utiliza tanto o conteúdo que vai ao ar em ondas médias pelas estações da ABC em Darwin e Alice Springs, assim com inserções adicionais de programação em idiomas Aborígenes.

Neste artigo será abordada a origem das emissoras.

O Território do Norte é uma ampla e esparsamente povoada região da Austrália, predominantemente desértica, que é administrada como um estado. Engloba uma área de mais de 80 mil km² em que habitam cerca de 250 mil pessoas. Esta grande região árida também inclui porções de cinco outros estados.

A capital do Território do Norte é Darwin e fica na costa norte, e duas das principais atrações turísticas são o monólito Ayers Rock, na região central e o conjunto de domos Olgas Rocks. Outras atrações incluem o Parque Nacional Kakadu, o maior do país, com mais de duas mil diferentes espécies de plantas e esculturas Aborígenes.

A história da radiodifusão em ondas curtas no Território do Norte tem sua origem no ano de 1928. Em Maio daquele ano, a estação de ondas médias 5CL, de Adelaide, e de cunho comercial, solicitou uma licença para operação em ondas curtas para retransmitir a programação de ondas médias para ouvintes espalhados no interior do país, tanto no Sul da Austrália como no Território do Norte. Durante algum tempo, o Território do Norte foi administrado pelo governo de Adelaide, no Sul da Austrália.

A licença da 5CL era para um transmissor de 5 kW na faixa entre 70 e 80 metros. Entretanto, as autoridades recusaram o fornecimento desta licença.

Como resposta, a 5CL começou a enviar parte de sua programação via cabo a Melbourne no ano seguinte, onde era recebida pela 3LO e retransmitida para o Território de Norte em ondas curtas pela estação VK3ME, um transmissor da AWA no subúrbio de Braybrook. A união 3LO-VK3ME também levou ao ar outros programas para os ouvintes no interior, embora a ênfase da cobertura em ondas curtas fosse voltada à Inglaterra e Estados Unidos.

Em 1938 foi feita outra tentativa de estabelecer uma estação de ondas curtas para cobertura específica da Austrália Central e do Território do Norte com um transmissor próximo a Adelaide. Entretanto, tal projeto foi abandonado devido à guerra iminente na Europa.

Em 1928, um transmissor experimental de ondas curtas de 600 watt foi instalado em um contêiner  próximo a Lyndhurst, em Victoria. A programação retransmitida tinha como origem as ondas médias das estações 3LO e 3AR de Melbourne. Inicialmente o transmissor foi ao ar sem um indicativo específico, sendo adotado subsequentemente uma combinação dos dois, isto é, 3LR. Ele foi posteriormente modificado para VK3LR e finalmente VLR, com aumento de potência ao longo do tempo; 1 kW, 2 kW, 5 kW e finalmente 10 kW.

Inicialmente a estação VLR levou ao ar programação tanto da 3LO como da 3AR, embora subsequentemente a programação nacional de Sydney via 3AR fosse ao ar a partir desta estação. A área de cobertura da programação da ABC por meio deste transmissor era o interior, e em muitas ocasiões importantes conteúdo especial era apresentado para tal audiência, incluindo boletins de notícias regionais. A estação de Lyndhurst foi fechada em 1987.

Quando o transmissor de 10 kW da VLG foi inaugurado em Lyndhurst em 1941, serviu com propósito duplo; retransmissão da programação da ABC para o interior e retransmissão da Rádio Austrália para o mundo. A unidade foi ao ar por um período de quase meio século, sendo também fechada em 1987.

Outro transmissor de 10 kW foi instalado em Lyndhurst em 1946 para cobertura do interior e assumiu a retransmissão da programação da ABC sob o indicativo VLH. Assim como VLR e VLG, também encerrou as operações em 1987, junto com todos os outros serviços de ondas curtas da ABC e Rádio Austrália a partir de Lyndhurst.

No Oeste da Austrália, o maior estado do país, uma nova estação de ondas curtas estava sendo construída quando do início da guerra na Europa. Este serviço em ondas curtas, inicialmente com apenas 2 kW, tinha como objetivo aumentar a área de cobertura da ABC nas áreas do interior daquele estado e do Território do Norte. Um transmissor novo de 10 kW foi instalado sob o indicativo VLW em 1960.

Então, em 1949, um transmissor de 50 kW foi instalado sob o indicativo VLX. Esta unidade foi incorporada à VLW em 1969, e os serviços em ondas curtas a partir de Wanneroo foram encerrados em 1994.

Em Queensland, da mesma forma existiram dois serviços em ondas curtas para o interior em paralelo com a estação de ondas médias da ABC em Bald Hills, localidade ao norte da capital do estado, Brisbane. O transmissor de 10 kW sob indicativo VLQ foi inaugurado em 1943; uma unidade temporária de 200 watt foi instalada seis anos depois como VLM. Tal transmissor foi substituído por um de 10 kW em 1951. Os transmissores VLQ e VLM deixaram de operar em 1993.

Houve outra estação de ondas curtas em território australiano que proporcionou excelente, embora não esperada cobertura em Alice Springs e na Austrália Central, a emissora de baixa potência (2 kW) VLI a partir de Liverpool, no subúrbio de Sydney. A VLI foi inaugurada em 1948 e retirada de serviço em 1983, quando o transmissor aparentemente apresentou problemas.

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Idiomas nos cartões QSL

16 02 2019

Adrian M. Peterson

Nos dias atuais é estimada a existência de 7100 idiomas vivos. As mesmas autoridades afirmam que a população da Índia fala 880 idiomas, e que no estado de Arunachal Pradesh existam 90 idiomas diferentes. A organização internacional de tradução United Bible Societies informa que as Escrituras Sagradas foram traduzidas para mais de 3324 idiomas (e também dialetos, creio).

O idioma mais falado no mundo é o Inglês, com um total de 1,121 bilhões de pessoas que a falam como língua primária ou secundária. O livro Guinness dos recordes (1988) listou um francês que era líder no domínio de idiomas. O poliglota Georges Henri Schmidt, era oficial das Nações Unidades no meio do século passado e era fluente em 31 idiomas.

Como é comum em todas as edições do WRTVHB, são listados programas de rádio no mundo todo em diversos idiomas, embora obviamente não em todos os falados no mundo. A All India Radio atinge seus ouvintes locais em 202, e no serviço internacional em ondas curtas são 28. A Voz da América, junto com suas subsidiárias, fala para o mundo em 50 idiomas; e atualmente, a BBC de Londres vai ao ar em ondas curtas em 18 idiomas.

A maioria das emissoras cristãs em ondas curtas transmitem em diversos idiomas. Por exemplo, a Trans World Radio apresenta sua programação em ondas curtas em 230 idiomas; a Adventist World Radio transmite em 120. A Far East Broadcasting Company das Filipinas vai ao ar em 113 idiomas; e a Rádio Vaticano apresenta sua programação em 20 idiomas.

Com tantos idiomas no ar e de tantas emissoras no mundo todo, também é esperado que os cartões QSL também sejam impressos em diversos idiomas. Várias emissoras de ondas curtas emitem suas confirmações no idioma oficial do país. Assim, é um tanto óbvio que emissoras como a Voz da América e Rádio Nova Zelândia Internacional emitam cartões QSL em Inglês. O mesmo quanto a Rádio Austrália antes de fechar abruptamente há dois anos atrás.

Curiosamente, algumas emissoras de ondas curtas utilizam cartões QSL apenas em Inglês, embora no país sejam falados outros idiomas. Por exemplo, os cartões QSL da All India Radio e da Rádio Bangladesh são sempre em Inglês. Os da Rádio Canadá Internacional, quando estavam no ar, eram emitidos nos idiomas oficiais do país: Inglês e Francês.

Também há emissoras de diversos países que emitem cartões QSL em Inglês assim como no idioma oficial. A Deutsche Welle já emitiu cartões QSL em Alemão e Inglês. Na década de 1990, o serviço Alemão da BBC emitiu um cartão QSL em tal idioma. Outras emissoras fizeram o mesmo, como a Rádio Coreia, Rádio Pyongyang  e Voz do Vietnã.

A China emitiu cartões QSL distintos em Chinês, Japonês, Português e Inglês; a Rádio Austrália emitiu QSLs em idiomas asiáticos como Japonês e Tailandês. A Rádio Nova Zelândia Internacional também emitiu cartões em Japonês. A Rádio Vaticano, cartões QSL em Inglês e Latin; e a Suíça em quatro idiomas: Alemão, Francês, Italiano e Inglês.

Além de idiomas internacionalmente conhecidos nos cartões QSL, ao menos dois artificialmente criados também foram usados em confirmações. Em 1957, o rádio amador SP8CK, de Lublin, Polônia, manteve um contato com CX1AK, de Montevidéu, Uruguai. O QSL do polonês foi impresso em Esperanto, a mais popular de todas as línguas auxiliares.

Um idioma bastante raro foi usado em um QSL em 1930. Ele foi emitido pela estação amadora SKW desde a cidade de Uman, na Ucrânia, e confirmou um QSO com a estação norte-americana NU1BES, da província de Rhode Island.

O titular do indicativo NU1BES era Lewis Bellem, um engenheiro da Universal Winding Company, que fabricava bobinas de rádio em Providence sob o nome fantasia Cotoco-Coils. Em 1938, tanto Bellem como Granville Lindley, outro engenheiro da mesma empresa, foram para a ilha Pitcairn, no Pacífico Sul e instalaram a estação de radiodifusão VR6AY.

O texto no QSL da estação SKW foi impresso no idioma Ido, que é um dialeto descendente do Esperanto. Hoje não há mais que 200 pessoas no mundo que saibam falar tal idioma.

Finalmente, em nossa jornada pelos idiomas nos cartões QSL chegamos à língua impressa para os deficiente visuais, que recebeu o nome Braille em homenagem ao francês Louis Braille, que ficou cego na infância por conta de um acidente. Em 1824, com apenas 15 anos, Braille inventou um sistema de seis pontos em relevo que permitem aos deficiente visuais a ler e entender os pontos com seus dedos.

Em 1955, a estação amadora francesa F9KX emitiu um cartão QSL para K6GW nos Estados Unidos. O texto do QSL foi impresso em Francês, junto com uma mensagem em Braille.

Em 1994, Arthur Cushen, de Invercargill, Nova Zelândia, recebeu um QSL e carda da estação 2PB da ABC desde a capital da Austrália, Canberra. Na época a a 2PB levava ao ar o noticiário da ABC, e o transmissor era uma antiga unidade de 2 kW que serviu à 2CY que fora reformado e ressintonizado para 1440 kHz. A carta, com quatro páginas, foi preparada em Braille.

Para encerrar, há vários anos a Adventist World Radio emitiu um número limitado de cartões QSL que foram impressos com um texto em Inglês e uma breve mensagem em Braille. Tais cartões foram obtidos junto à Christian Record Services, de Lincoln, Nebraska.

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A radiodifusão em Macau

2 02 2019

Adrian M. Peterson

No artigo de hoje será abordada a história de Macau quando a guerra entre Japão e China estava em curso para então explodir na dramática Guerra do Pacífico entre 1941 e 1945.  Num dia 7 de Dezembro, forças japonesas fizeram um ataque surpresa à várias localizações estratégicas no Pacífico, incluindo Honolulu no Havaí e a ilha de Luzon nas Filipinas, assim como o território colonial britânico de Hong Kong na costa da China.

Por conta de Portugal ter permanecido neutro durante a II Guerra Mundial e por Macau ser uma colônia portuguesa na costa da China, este pequeno território asiático foi poupado de muita da devastação que atingiu a região da Ásia-Pacífico. Entretanto, durante o conflito, Macau tornou-se um centro de refugiados com cerca de quinhentos mil de diferentes partes da Ásia.

O principal influxo de refugiados veio da China continental, com um adicional de 9 mil vindos de Hong Kong. A quantidade elevada de migrantes causou drástica escassez de alimentos e acomodações em Macau.

Inicialmente as autoridades japonesas aceitaram e respeitaram a neutralidade de Macau durante a guerra na Ásia-Pacífico. Mas, em Agosto de 1943, tropas japonesas abordaram um navio cargueiro britânico em Macau, o Sian (X’ian), e este evento levou a instalação de de interventores japoneses na colônia.

No fim da Guerra no Pacífico durante o ano de 1945, aviões americanos bombardearam Macau três vezes, pelas quais os Estados Unidos concederam pagamento de reparação no valor de 20 milhões de dólares a Portugal cinco anos depois. O primeiro ataque ocorreu em 16 de Janeiro durante incursões pelo mar do sul da China como parte da Operação Gratidão.

Na época, os navios da marinha dos Estados Unidos estavam passando perto de uma zona de tempestade e seus aviões bombardearam o centro de aviação naval na costa de Macau e destruíram os tanques reserva de combustível de aviação. Também bombardearam uma emissora a ilha de Macau. No dia seguinte, a Rosa de Tóquio anunciou em Inglês a partir da Rádio Tóquio em ondas curtas: Nós não sabemos como vocês chegaram na área; mas agora, como irão sair?

Voltando à história da radiodifusão em Macau, ela tem início na metade do século passado. Em 1941, a Rádio Clube de Macao foi formada e herdou os equipamentos e instalações de outra emissora que foi ao ar com os indicativos CQN e CRY9. Passou a transmitir na frequência de 6070 kHz com um novo indicativo: CR8AA.

O indicativo CR8AA parece com um destinado a radioamadores, embora fosse usado pela emissora quando ia ao ar para transmissão de notícias e programas de entretenimento. Curiosamente o prefixo CR8 identificava outra colônia portuguesa, Goa, na Índia, ao invés de Macau.  Durante aquela época, com a tensão na Ásia em alta, acredito que o governo da metrópole identificou a estação em Macau ligando a Goa para dar um toque psicológico de união entre as colônias distantes.

Os estúdios desta emissora de ondas curtas sempre foram localizados no andar superior do prédio dos correios em Macau e o transmissor no Forte Dona Maria. Ele foi construído pelas autoridades portuguesas em 1852 em uma localidade isolada numa pequena península projetando-se para a baía da ilha principal de Macau. O transmissor de 500 watt foi construído em três partes separadas: um excitador de baixa potência, um amplificador de 500 watt e o retificador.

Uma foto de uma revista de rádio de 1935 reproduzia os mastros no Forte Dona Maria, dois deles identificados como suporte de uma antena zeppelin que era usada para transmissões em ondas curtas da CR8AA. Um terceiro mastro não foi identificado, embora pareça ser para recepção de de tráfego utilitário.

Não há indicação de que a CR8AA levou ao ar algum tipo de programação durante a guerra no Pacífico. Após o bombardeio de Hong Kong em 8 de Dezembro de 1941 não houveram informações de monitoramento até que a estação fosse reativada em Agosto de 1945.

A estação bombardeada por aviões americanos em 16 de Janeiro de 1945 foi de fato a CR8AA. Aparentemente os danos ao transmissor não foram grandes, pois em Agosto ela foi captada novamente com bom sinal na Austrália em 7530 kHz. Um relatório de monitoramento publicado por Lawrence J. Keast, editor do Australasian Radio World, comentou: a Rádio Clube de Macau reapareceu após um longo período de silêncio.

Um cartão QSL de tamanho grande foi enviado a um ouvinte da Suécia por conta de uma recepção em Dezembro de 1945 e mostrava uma representação artística da costa de Macau. O texto, em Inglês, confirmava a recepção em 7505 kHz, frequência posteriormente substituída pela de 9300 kHz.

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Segurança de aeroportos e DXpeditions

26 01 2019

John Bryant

Aproveitando que ainda está fresco em minha memória, imagino que seja interessante compartilhar algumas lições da minha recente DXpetition à Ilha de Páscoa. Na primavera de 2007 planejei duas DXpeditions na sequência, sendo a primeira em Cape Hatteras, Carolina do Norte, como um teste para a segunda, a viagem à Ilha de Páscoa. Já tinha a certeza de que precisaria levar uma quantidade razoável de itens e que seria necessária a passagem pela fiscalização do aeroporto.

Para cada viagem precisei de duas malas que despachei e uma mochila que levei como bagagem de mão. Embora tenha levado os menores equipamentos possíveis, o conjunto pesava cerca de 23 kg e era composto por diversos objetos pequenos e suspeitos.

Tendo em vista meu histórico de perda de bagagem, também estava preocupado quanto a chegada do meu destino sem equipamentos vitais. Assim, decidi manter os itens principais na bagagem de mão: o receptor Eton E1-XM, um transformador de impedância, gravador de áudio principal, um Edirol R-09 da Roland, algumas pilhas reserva, fones de ouvido e 150 metros de fio. Ao ser visto por uma máquina de raio-X, não pude imaginar outra bagagem mais suspeita que a minha. Também planejei chegar ao aeroporto com ao menos duas horas de antecedência para a eventualidade de problemas com a segurança ou questões aduaneiras.

Nas duas viagens a partir de Oklahoma, a bagagem de mão passou pela máquina de raio-X da segurança uma dúzia de vezes nos Estados Unidos, Santiago (Chile) e na Ilha de Páscoa. Em dez das doze vezes passou sem que fossem feitas perguntas, um fato que achei um tanto chocante e assustador. Em duas ela foi inspecionada e isso também é digno de nota: uma foi basicamente física com o agente de segurança satisfeito com minha explicação do fio de antena e na outra fui instado a ligar o rádio para demonstrar.

Na segunda inspeção, o agente usou um equipamento portátil, constituído por uma caixa preta com um tubo rígido longo; ele introduziu o tubo em vários bolsos e fendas da mochila, aparentemente usando o dispositivo para buscar por resíduos de explosivos. A inspeção foi rápida e eu passei levando também um boletim e uma revista com artigos sobre o hobby: auxílios para provar que sou um entusiasta do rádio caso fosse questionado sobre mais detalhes. Esse material não foi necessário, mas sua presença certamente foi reconfortante.

Minha experiência com a verificação de bagagem foi mais tranquila que esperava. Absolutamente não tive problemas com a segurança nas viagens entre Oklahoma e Norfolk em direção a Cape Hatteras, então comecei a achar que havia exagerado no planejamento. Bem, nem tanto.

Conforme procedimento padrão, ao deixar a Ilha de Páscoa cheguei em Oklahoma a partir do aeroporto Will Rogers com duas horas de antecedência. Fiz o check-in, peguei o cartão de embarque e precisei levar a mochila pesada até o mais distante portão de embarque. Mal tinha sentado na sala de espera quando vi no sistema de aviso: “Passageiro John Bryant, da American Airlines, favor se apresentar ao funcionário mais próximo da companhia”.

Francamente, fiquei um tanto assustado; e a situação realmente piorou! Eu me apresentei ao funcionário e fui informado que precisaria voltar ao guichê de bagagem pois o pessoal da segurança “não conseguiu abrir a bagagem para inspeção”. Informei a ele que a minha bagagem não tinha nenhum tipo de trava e que havia um erro… ele então informou que não conseguiram resolver o problema e que eu teria mesmo que voltar “se quisesse viajar pela American Airlines”. Então…

Quando cheguei ao guichê dei de cara com uma policial que permaneceu a quase dois metros de distância de mim e manteve sua mão no coldre da pistola enquanto conversava comigo. Não me sentia tão ameaçado desde minha viagem paga pelo governo ao Vietnã na década de 1960. Ela disse que tanto os agentes federais como da segurança de Oklahoma tinham sérias suspeitas quanto a minha bagagem e que eu teria que acompanhá-la para ser interrogado. Em nenhum momento ela caminhou ao meu lado ou a minha frente, mantendo sempre os quase dois metros de distância atrás de mim e se limitava a dizer em voz alta para onde eu precisava ir. Em seguida fui desencorajado a descrever o aparato de segurança que vi nas baias de verificação de bagagem do aeroporto na minha pequena jornada com a policial, mas era realmente impressionante.

A policial, sua pistola e eu chegamos a uma mesa onde minha bagagem estava aberta e sendo examinada como em uma autópsia de um corpo interessante, mas assustador ao mesmo tempo.

Fui interrogado pelos policiais de Oklahoma e por David W. Culver, Diretor Assistente Federal de Segurança, que não ficou facilmente satisfeito com minhas colocações. O que despertou a suspeita e disparou o alarme foi o tubo de PVC de uma antena ativa de ferrite da Ramsey que trouxe para uso apenas no ambiente ruidoso do meu quarto de hotel em Santiago. O senhor Culver disse que o tubo de 1,5 polegadas em forma de “L” parecia uma bomba.

Eu disse que achava tudo aquilo estranho, uma vez que todas as bombas do tipo que vi em artigos usavam tubos de ferro ou aço para produzir estilhaços na explosão. Fui informado que não queriam discutir o assunto a fundo, mas que SEMPRE que levasse qualquer produto de PVC a bagagem seria tratada com o mesmo nível de risco que se estivesse levando uma pistola carregada. Isso realmente me irritou. Disse que estava ciente das questões de segurança e que NUNCA tinha visto qualquer aviso com relação a portar itens de PVC e que realmente não era algo do mesmo nível que uma pistola carregada; A única arma que tive foi um revólver de espoleta quando tinha 9 anos de idade.

Ele me explicou que ao levar PVC, a bagagem precisaria ser verificada e o passageiro informado. Ela seria inspecionada e assegurada se poderia ser despachada… neste caso com uma marcação especial. Após 15 minutos de discussão o clima ficou mais amigável e fui conduzido ao longo das baias para que pudesse seguir viagem com minha bagagem suspeita. Ficaram agradecidos por eu ter colocado dentro da mala uma nota agradecendo a inspeção e explicando um pouco do meu hobby e me colocando à disposição para demonstrar os equipamentos caso necessário. Também ficaram agradecidos por eu ter chegado ao aeroporto com bastante antecedência. Então segui minha viagem de Dallas em um voo noturno de dez horas até Santiago.

Pensando um pouco mais sobre o episódio, imagino que há uma boa chance de que o agente Culver não estava dizendo exatamente a verdade. Tenho certeza que o tubo de PVC, que era praticamente novo, ao passar pelos sensores não houve capacidade de distinção entre um tubo de PVC e alguns tipos de explosivos plásticos, por isso o alerta de segurança. Ao menos esta explicação tem mais sentido pra mim. De qualquer forma, eu nunca mais vou levar PVC em minha bagagem novamente. Por via das dúvidas, desmontei a antena enquanto estava na Ilha de Páscoa e deixei o tubo para trás.

Então, após esta experiência, aqui estão minhas regras de trabalho atuais para DXpeditions dependentes de aeroportos:

1 – Chegue ao aeroporto e passe pela inspeção de segurança com ao menos duas horas de antecedência do voo. Os itens de rádio em sua bagagem podem podem chamar atenção e necessitar de melhor verificação/explicação junto ao pessoal da segurança, o que pode levar tempo;

2 – Deixar uma nota para para o pessoal da segurança em cada bagagem sobre o conteúdo parece ser uma atitude inteligente. Isso realmente me ajudou;

3 – Além de fotos, levar um boletim ou revista que contenha material que o identifique como entusiasta do rádio pode ajudar;

4 – Não tente levar PVC. Se for absolutamente necessário, solicite a inspeção da bagagem imediatamente;

5 – Irritação ou demonstrar mau humor não ajudará. Mantenha a calma, agradeça-os por fazer seu trabalho e seja empático com relação às difíceis decisões que a presença do seu equipamento pode demandar também parece funcionar.

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A história de um ouvinte sobre o “rádio natural” em ELF/VLF

20 01 2019

Stephen P. McGreevy

Poucas pessoas conhecem (e ainda menos tiveram a curiosidade de sintonizar) a bela “música” produzida naturalmente por diversos processos da natureza incluindo raios e a aurora, com a contribuição de eventos ocorridos no sol. Eu sou particularmente fascinado pela escuta de sinais de rádio naturais desde 1989, quando ouvi os primeiros assovios quase que imediatamente após testar um aparato de recepção bastante rudimentar.

Os assovios são uma das formas mais frequentes de emissões de rádio natural, mas são apenas um dos muitos “sons” que a Terra produz o tempo todo e que chamam a atenção e provocam o fascínio em uma comunidade pequena mas crescente de ouvintes e pesquisadores nas últimas quatro décadas.

“Rádio Natural,” foi um termo criado no fim da década de 1980 pelo Dexista e pesquisador californiano Michael Mideke, que descreveu como a ocorrência de sinais eletromagnéticos emanados de raios, aurora (luzes do norte ou sul), e do campo magnético da Terra (magnetosfera). A maior parte das emissões naturais da Terra ocorrem na faixa de frequências extremamente baixas e frequências muito baixas (ELF/VLF) especificamente em frequências de áudio aproximadamente entre 0,1 e 10 kHz. Diferentemente das ondas sonoras que são vibrações das moléculas de ar as quais nossos ouvidos são sensíveis, as ondas de rádio natural são vibrações de energia elétrica e magnética (ondas de rádio) que embora ocorram na mesma faixa do som não podem ser ouvidas sem um receptor capaz de converter tais sinais em áudio.

Os assovios são magníficos estouros de energia em ELF/VLF iniciados por raios quando da “queda” de raios. Eles podem atingir frequências de 10 Hz a pouco menos de 200 Hz, embora a maioria fique entre 6 Hz e 500 Hz. Ele podem dizer aos cientistas bastante sobre o ambiente entre o Sol e a Terra e também sobre a magnetosfera da Terra.

As causas dos assovios são conhecidas, mas não completamente compreendidas. O que está claro é que devem sua existência aos raios. Eles propagam energia em todas as frequências eletromagnéticas simultaneamente. Além disso, nosso planeta é atingido pela energia de raios de cerca de 1500 a 2000 tempestades que ocorrem diariamente, resultando em mais de um milhão de raios por dia. A energia total dos raios combinados supera todos a potência de todos os sinais de rádio produzidos pelo homem e a energia elétrica gerada. Eles também devem sua existência ao campo magnético da Terra (magnetosfera), que cerca o planeta como uma luva, e também o Sol. Os ventos solares consistem de energia e partículas carregadas (íons). A combinação do vento solar com o campo magnético do nosso planeta e os raios interagem para criar estes sons intrigantes.

A forma pela qual os assovios desta combinação de forças naturais entre Sol e Terra ocorre é: parte dos pulsos de energia dos raios viaja pelo espaço por meio da ionosfera e pela magnetosfera, onde seguem aproximadamente as linhas de força do campo magnético da Terra para o hemisfério polar oposto por meio de “dutos” formados por íons fluindo para a Terra a partir do vento solar. Os íons do vento solar são capturados e alinhados com o campo magnético da Terra. Conforme a energia dos raios viaja por meio de tais dutos, suas rádio-frequências são espalhadas de forma similar a da luz viajando por um prisma. As frequências de rádio mais altas chegam antes das baixas, resultando em tom em escala descendente de variada pureza.

Desta forma, um assovio será ouvido a milhares de quilômetros do ponto em que ocorreu e no hemisfério polar inverso! Tempestades na Colúmbia Britânica e no Alaska podem produzir assovios que serão ouvidos na Nova Zelândia. Da mesma forma, um raio no leste da América do Norte pode produzir assovios que serão ouvidos no sul da Argentina ou mesmo na Antártida. Ainda mais notavelmente, a energia de um assovio pode ser refletida de volta pela magnetosfera próxima ou não tão próxima da tempestade que a originou! Ainda teremos mais discussão sobre a teoria deste assunto nos próximos parágrafos.

Considerado por muitos ouvintes como a “Música da Terra,” os assovios estão entre as diversas descobertas acidentais da ciência. No fim do século XIX, operadores de telégrafo ou telefone na Europa estavam entre as primeiras pessoas a ouvir os assovios. As longas linhas telegráficas captavam os estalos e o crepitar das tempestades elétricas, que era então misturado com o código Morse ou ao áudio das estações de fonia. Às vezes, os operadores de telefone também ouviam tons misteriosos ao fundo. Eles eram atribuídos a problemas com o cabeamento e conexões do sistema telegráfico e então desconsiderados. O primeiro relatório escrito deste fenômeno data de 1886 na Áustria, quando os assovios foram ouvidos a 22 km em uma linha telefônica sem amplificação. Um artigo de W.H. Preece (1894) na revista Nature informava que os operadores do serviço postal do governo britânico ouviam os assovios nos receptores telefônicos conectados a linhas telegráficas durante uma aurora boreal em 30 e 31 de Março de 1894.  Suas descrições sugeriam que ouviam os assovios e o “borbulhar/murmurar” do “coro” da aurora. Durante a I Guerra Mundial, os alemães e aliados empregavam amplificadores de áudio sensíveis para captar as comunicações de seus inimigos. Estacas de metal eram fixadas próximas ao cabeamento telefônico dos inimigos e conectados a amplificadores valvulados de alto ganho, onde o sinal de áudio pudesse ser interceptado. Esta forma rudimentar de espionagem eletrônica funcionava relativamente bem na maioria do tempo, apesar dos sons de fundo provocados por raios. Em alguns dias as conversações eram interceptadas eram parcialmente ou totalmente sobrepostas por estranhos assovios. Soldados no front diziam que “podiam ouvir o som das granadas voando”. Eles eram descritos como “pios”, atribuídos primeiramente a amplificadores de áudio reagindo adversamente ao ruído de fortes descargas elétricas. Quando testes de laboratório em tais amplificadores de áudio falharam para recriar os sons dos assovios, o fenômeno foi considerado “inexplicável” na época.  (H. Barkhausen, 1919).

Em 1925, T. S. Eckersly, da Marconi Wireless Telegraph Company, descreveu distúrbios de natureza musical que eram conhecidos pelos engenheiros de rádio há vários anos. Eles eram ouvidos quando um telefone ou qualquer outro sistema de gravação de áudio era conectado a uma antena muito comprida. O que eles estavam ouvindo era o som de energia de descargas elétricas noturnas com um receptor de VLF ou amplificador de áudio. Várias pessoas começaram a observar como raios e aurora coincidiam com muitos dos sons estranhos que estavam sendo ouvidos em seus aparatos (Barkhausen, Burton, Boardman, Eckersly, etc.). Na década de 1930, o relacionamento entre os assovios e descargas elétricas foi teorizado, e em 1935, Eckersly chegou à conclusão comumente aceita de que os raios provocavam ondas de rádio na ionosfera da Terra e causava tais sons. Esta explicação chegava bastante perto da realidade.

O interesse neste tipo de sinal caiu durante a II Guerra Mundial, mas foi renovado com o desenvolvimento de espectrógrafos de som e analisadores de espectro, que podiam traçar a componente de áudio no tempo em função da frequência. Esta tecnologia foi desenvolvida principalmente para o estudo de características sonoras da voz e outros sons, mas também funcionava para o estudo dos assovios (R. K. Potter, 1951).

Foi durante esta época que L.R.O. Storey em Cambridge, Inglaterra, começou uma profunda investigação sobre a natureza e a origem dos assovios. Armado com informações apresentadas por Barkhausen, Boardman, et al., com um analisador de espectro e outros equipamentos de áudio frequência, estudou os assovios, descobrindo diversos tipos deles que eram ou não audíveis e associados com descargas elétricas (cliques) no receptor. Ele conseguiu elaborar gráficos de diversos tipos de assovios, formando a base da teoria magneto-iônica de sua origem, e também os efeitos das tempestades magnéticas da Terra.

Storey concluiu que os assovios eram formados pela energia de descargas atmosféricas ecoando ao longo das linhas de força do campo magnético da Terra, sugerindo que havia uma densidade muito maior que a esperada de íons na ionosfera exterior e além e que a fonte de ionização “extra” estava relacionada com o Sol. Ele também (corretamente) presumiu que estes íons do Sol também eram responsáveis por tempestades magnéticas e auroras.

Storey, enquanto estava concentrado nos assovios foi capaz de ouvir e categorizar diversas outras emissões de áudio frequência, incluindo o coro do alvorecer, chiado constante e certos assovios com descida de tom. Seus estudos durante a década de 1950 foram importantes para teorizar o assunto ao mostrar que os assovios percorrem de forma muito próxima a direção do campo magnético da Terra. Em 1952, os resultados de seus trabalho foram apresentados por J. A. Radcliffe na 10ª Assembleia Geral da URSI em Sydney, Austrália, despertando considerável interesse entre os delegados presentes. O relatório de Radcliffe estimulou a pesquisa na Universidade de Stanford, encabeçada pelo “pai da pesquisa sobre os assovios,” R. A. Helliwell.

Em 1954, na próxima Assembléia Geral da URSI ocorrida em Hague (Holanda), a teoria dos assovios foi discutida em profundidade e foram feito planos para estudá-los em oposição aos pontos “conjugados” do campo magnético da Terra.

Tempestades observadas em um hemisfério foram ouvidas como assovios rápidos no hemisfério oposto. Esta observação notável foi conduzida por Helliwell em Stanford, Califórnia e à bordo do U.S.S. Atka localizado no Pacífico Sul próximo ao ponto magnético conjugado oposto. Os sons da estática ouvidos nos receptores de VLF do navio foram ouvidos simultaneamente em Stanford. Maior verificação por Storey foi confirmada pela observação de assovios ouvidos simultaneamente no Alaska e em Wellington, Nova Zelândia, que fica no oposto magnético do Alaska.

Com a história dos assovios e toda a pesquisa existente em mente, vou pausar esta lição de história e explicar a teoria em maiores detalhes. A teoria geralmente aceita dos assovios (Storey, Morgan, Helliwell) é a seguinte (os parágrafos que virão foram tirados diretamente do manual do meu “Receptor de assovios” WR-3 e repete algumas informações apresentadas anteriormente neste artigo, assim como tornam mais claros alguns termos já citados):

The Earth’s outer magnetic field (the “magnetosphere”) envelopes the Earth in an elongated doughnut shape with its “hole” at the north and south magnetic poles. The magnetosphere is compressed on the side facing the Sun and trails into a comet-like “tail” on the side away from the Sun because of the “Solar Wind” which consists of energy and particles emitted from the Sun and “blown” toward Earth and the other planets via the Solar Wind.  Earth’s magnetosphere catches harmful electrically charged particles and cosmic rays from the Sun and protects life on Earth’s surface from this lethal radiation.  Among the charged particles caught in the magnetosphere are ions (electrically charged particles), which collect and align along the magnetic field “lines” stretching between the north and south magnetic poles.

Os íons alinhados com o campo magnético e que bombardeiam a magnetosfera da Terra formam “dutos” que podem canalizar o impulso de energia eletromagnética dos raios. Os assovios ocorrem quando um impulso eletromagnético de um raio entra em um desses dutos de íons formados aos longo das linhas magnéticas de força, e são arqueado para o espaço e depois para a extremidade do canal do duto magneto-iônico no hemisfério oposto (conhecido como oposto “magnético conjugado”), onde é ouvido como uma nota pura de tom descendente ou como um breve chiado. Os assovios soam desta forma por conta das altas frequências de energia dos raios que viajam mais rápido que as baixas em um processo que os pesquisadores chamam de “dispersão.” Uma pessoa ouvindo um receptor de VLF como o WR-3 no hemisfério oposto de um raio (no extremo do duto magnetosférico) ouvirá este chiado rápido ou nota descendente. Os assovios do tipo nota geralmente tem duração de 0,3 segundo.

Se a energia inicial do assovio for refletida de volta ao duto magneto-iônico para retornar próximo ao ponto do impulso original do raio, um ouvinte com um receptor de VLF escutará um “pop”, então, cerca de 1 ou dois segundos depois, a nota decrescente do assovio, agora chamado de “longo” ou assovio de “dois saltos”. Os assovios de dois saltos geralmente tem cerca de 1-4 segundos de duração dependendo da distância que a energia do assovio tenha viajado pela magnetosfera. Assovios de um salto geralmente tem tom mais alto que os de dois saltos.

A energia que originou o raio pode provocar diversos “saltos” indo e voltando entre os hemisférios norte e sul durante sua viagem pelas linhas de força da magnetosfera da Terra.

Pesquisadores também observaram que a magnetosfera parece amplificar e sustentar a energia inicial do impulso do raio, permitindo a a existência de assovios “multi-saltos”, criando longos ecos no receptor que soam de forma espetacular! Cada eco é proporcionalmente mais longo e lento em sua queda de tom e também progressivamente mais fraco.

As condições na magnetosfera devem estar favoráveis para que os ecos dos assovios multi saltos possam ser ouvidos. Com equipamento especial de recepção e espectrógrafos, pesquisadores chegaram a documentar 100 ecos de assovios particularmente fortes – imagine quanta distância a energia do centésimo eco percorreu – certamente milhões de quilômetros!

Geralmente apenas um ou dois ecos são ouvidos, mas em condições excepcionais, ecos mais longos resultarão em uma sobreposição de notas descendentes que podem se misturar em tons coerentes de uma mesma frequência, difícil de descrever, mas não muito diferentes dos que podem ser ouvidos em um filme de fição científica!

Voltando a história da pesquisa sobre o assunto, planos para estudo dos assovios, coros e outras frequências de áudio de fenômenos naturais foram formuladas pelo Dr. J. G. Morgan da Universidade de New Hampshire em Hanover, assim como pelo Dr. Helliwell em Stanford, para o Ano Internacional da Geofísica que iniciaria em 1957. Cerca de 50 estações receptoras foram instaladas em várias localidades do mundo, incluindo pontos remotos no norte do Canadá, Alaska, Europa, incluindo a Escandinávia e até mesmo a Antártida. Este período foi o início do estudo profissional mais intensivo dos assovios. No início da década de 1960, alguns satélites (IEEE-1, Injun, Allouette) destinados a órbita baixa da Terra foram equipados com receptores de VLF.

Estes receptores de VLF instalados em satélites gravaram com sucesso os assovios e proporcionaram um bom aumento do conhecimento sobre as emissões de rádio naturais. Durante a década de 1970, sondas espaciais, como a Pioneer e Voyager, também descobririam o mesmo fenômeno ocorrendo em outros planetas do sistema solar, como Júpiter e Saturno, que possuem enormes e poderosas magnetosferas. Estes gigantes gasosos, assim como grandes magnetosferas também possuem auroras próprias. Na década de 1980 houve um aumento na observação amadora e profissional, graças a maior disponibilidade de componentes de estado sólido e artigos sobre a construção de receptores de VLF. Em 1985, artigos sobre os assovios e projetos de receptores apareceram em diversas revistas de rádio e eletrônica, assim como boletins de clubes, mais notadamente a edição mensal do Longwave Club of America (The Lowdown). Diversos membros do LWCA, incluindo Michael Mideke, Mitchell Lee, Ev Pascal, Ken Cornell e outros, publicaram artigos ou projetaram suas próprias estações receptoras. Elas normalmente usavam pequenas antenas loop ou de fio, diferentemente dos receptores “profissionais” de VLF usados no fim das décadas de 1950 e início de 1960, que empregavam antenas loop de grande porte e/ou mastros verticais bastante elevados.

Uma das pessoas responsáveis pelo meu fascínio sobre o rádio natural é Michael Mideke, que foi um ávido entusiasta envolvido em vertentes que ligam rádio e esoterismo (e não-rádio) desde o início dos anos 1970. Mike me passou uma quantidade considerável de conhecimento sobre a recepção de rádio em ondas longas e experimentação de transmissão em frequências superiores ao rádio natural, sendo que ele começou a monitorar em meados de 1988, mais de um ano antes de eu ouvir o primeiro assovio no deserto de Oregon. Nos 25 anos anteriores, Mike, sua esposa Elea e dois filhos viveram como caseiros em uma grande propriedade rural em uma região de cânions no centro da Califórnia, longe da rede elétrica. Mike tinha espaço para estender antenas muito longas e em diversas direções conectadas a vários receptores. Sua localização também era ideal para a escuta dos assovios. Ao longo dos anos, Mike também fez centenas de horas de gravações de incríveis sons da Terra.

Ele teve particular sorte por monitorar durante 24 horas por dia na alta do ciclo solar 1989-1991, quando os distúrbios geomagnéticos e assovios eram mais numerosos. Mike também passou adiante seus resultados de experimentação com receptores. No verão de 1990, comecei a experimentar com receptores empregando antenas curtas com menos de 1,8 metro. Foi possível monitorar a atividade de assovios, embora as primeiras versões tivessem pouca sensibilidade. Devo creditar a ideia original de usar antenas curtas a um amigo de longa data e entusiasta do assunto, Gail West, que vive em Santa Rosa, Califórnia e me acompanhou em diversas viagens e expedições na caça dos assovios. Gail repetidamente testemunhou minha frustração ao fixar antenas de fio pesadas e em uma manhã particular (no verão de 1989), no deserto do norte de Nevada, quando comentou: “seria interessante usar uma antena curta ao invés de fios longos.” Também, em uma seção solitária de escuta nas colinas do condado de Marin, na Califórnia, em Fevereiro de 1990, ouvi um assovio intenso a partir do alto falante do gravador com uma antena de pouco mais de três metros ainda enrolada. Esta experiência me lembrou da ideia de Gail e a tornou mais plausível. A ideia de um receptor portátil para assovios parecia apenas um sonho, mas que tornou-se realidade em apenas dois anos de escutas e ajustes em receptores.

Cada vez melhores e mais sensíveis mesmo com antenas curtas, os receptores de assovios que passaram pela minha bancada foram os mais diversos. Em uma bonita manhã da primavera de 1991, enquanto seguia uma trilha entre as montanhas à leste de San Diego com o amigo Frank Cathell da Conversion Research, eu demonstrei meu receptor BBB-2. Frank ficou tão fascinado com o receptor que ingressou no hobby em Agosto de 1991. Após três meses de preparação, criamos um sensível receptor portátil que precisa apenas de uma antena com 80 centímetros que foi batizado como “WR-3,”. Logo em seguida iniciamos a venda de forma casual. O WR-3 abriu a possibilidade de escuta de assovios a qualquer um, mesmo sem tanto conhecimento técnico e com acesso a algum local eletricamente quieto, assim como de outros fenômenos naturais em VLF. Graças a ele, tanto os assovios como chiados de raios ficaram fáceis de ouvir, estando o ouvinte na dependência apenas do show da mãe natureza.

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