Revolución! A emissora clandestina e a ascensão de Fidel Castro

7 05 2017

Don Moore

Uma versão editada deste artigo foi publicada originalmente na edição de Abril de 1993 da revista Monitoring Times.

Nós celebramos a vitória na Guerra Fria; O Comunismo caiu. Mesmo a antiga União Soviética se converteu em um livre mercado e tem realizado eleições livres. Mas o Comunismo em si não desapareceu. A apenas 145 km da costa dos EUA, Fidel Castro continua a controlar Cuba com mão de ferro. Ele foi chamado certa vez de “espinho ao nosso lado”; hoje ele está mais para um alfinete. Os dias de glória da revolução se foram.

Apesar do tempo passado, não é inteligente subestimar Castro. Ele tanto pode nos deixar no mês que vem como pode continuar governando pelos próximos dez anos. Castro provou ser um político astuto, e nada deixa isso mais evidente que sua chegada ao poder. Ele talvez tenha começado com boas intenções, ou mesmo usou das boas intenções para cobrir seus planos de dirigir a nação ditatorialmente. Isso apenas Fidel sabe. Por mais irreal que pareça hoje, na década de 1950 Fidel Castro surgiu como a única esperança de liberdade e democracia para Cuba. Ele fez todas as coisas certas em uma guerra de guerrilha para derrubar uma ditadura corrupta. E fazendo isso ele escreveu uma das mais fascinantes histórias do mundo das emissoras clandestinas – a história da Radio Rebelde.

UMA TERRA SEM LIBERDADE
Ao longo de sua história, Cuba foi marcada pela repressão e injustiça. Após a queda do brutal regime colonial espanhol em 1898, Cuba foi governada por uma sucessão de ditadores cruéis e políticos corruptos. Em 1933, em uma das mais esquisitas chegadas ao poder, o sargento Fulgencio Batista liderou uma revolta de suboficiais do exército cubano. Batista foi aceito como parte da junta interina e após alguns conflitos internos, tornou-se o líder do país.

Batista dominou Cuba politicamente pelos próximos vinte e cinco anos. Seu governo começou com grande esperança na democracia e justiça, mas gradualmente tornou-se um governo gangsterista. Assassinatos de inimigos políticos foram comuns e líderes militares extorquiam centenas de milhares de dólares por mês dos comércios legais e ilegais de Havana. Com a ajuda da máfia, Havana tornou-se um centro de prostituição cassinos de jogos. No início da década de 1950, apenas o apoio incondicional do alto comando do exército e de certas empresas interessadas mantinham Batista no poder; o povo cubano era firmemente anti-Batista.

O INÍCIO DE FIDEL
Fidel Castro nasceu em 1926 numa região canavieira do leste de Cuba em que seu pai mantinha uma próspera plantação. Como todo filho de proprietário de terras de classe média, Fidel foi para a Universidade de Havana para estudar Direito. Fidel, entretanto, abandonou os estudos e se envolveu em estudos políticos, onde ficou conhecido por sua inteligência, habilidade política e capacidade de discursar. Foi líder estudantil e começou a trabalhar com os setores mais firmes de oposição a Batista. Esperar uma mudança política pacífica não era algo muito atraente para Fidel.*

Ainda um jovem idealista, Castro acreditava que com as ações corretas a população se levantaria e derrubaria Batista. Isso ocorreu por meio de um ataque contra o quartel de Moncada, no leste da cidade de Santiago, próximo a onde ele cresceu. Os seguidores de Castro eram pouco mais de 100, armados principalmente com rifles de caça e pistolas, enquanto o quartel contava com mil soldados bem armados. Castro tinha o elemento surpresa, e com isso em mente ele conseguiria a vitória. O ataque ocorreu ao amanhecer de 26 de Julho, logo após o carnaval de Santiago; a maior parte dos soldados estavam bêbados. Castro preparou um discurso revolucionário que leria usando a estação de rádio da base uma vez que obtivesse seu intento. Ele entregaria as armas disponíveis ao povo e passaria a controlar a segunda maior cidade de Cuba.

O ataque começou com sucesso, com dois destacamentos revolucionários capturando postos estratégicos sem feridos. Mas, os seguidores destreinados de Castro ficaram confusos ao atacar os setores principais e o alarme soou. Eles rapidamente estavam confrontando centenas de soldados e foram forçados a recuar. Um dos companheiros de Castro quase chegou à estação de rádio antes de ser atingido.

O exército respondeu de forma extremamente violenta. Rebeldes feridos deixados para trás e os que fugiram foram caçados pela cidade e então brutalmente torturados e assassinados. Os que tiveram sorte, como Fidel e seu irmão Raul, escaparam para uma montanha na região. Por conta de alguns dos rebeldes que escaparam estavam feridos, cidadãos inocentes de Santiago com machucados de acidentes foram igualmente levados para Moncada para interrogatório, tortura e talvez assassinato. A reação excessiva do exército levou a protestos públicos, levando o Bispo local a intervir. Com um megafone e um pequeno grupo de soldados de outros quartéis, o Bispo foi às montanhas para persuadir os rebeldes a se render. Alguns o fizeram, e outros, incluindo Fidel, foram capturados. O Bispo pessoalmente garantiu sua salvaguarda.

Em Outubro os sobreviventes foram levados à julgamento. Fidel usou seu poder de oratória para fazer um discurso brilhante, que foi impresso e distribuído clandestinamente na ilha. Ele foi sentenciado à 15 anos na prisão de Isla de Pinos, onde seria esquecido. Entretanto, sua fala, a resposta violenta do exército ao ataque e a Igreja Católica ter feito a revolta de Fidel respeitável ao salvar sua vida, foram fatores que somados tornaram ele um herói nacional entre o número constante de cubanos opositores de Batista. Fidel venceu a primeira batalha.

FIDEL NO MÉXICO
Batista tinha o hábito de fazer grandes gestos vez ou outra para provar que era um governante justo. Sentindo-se magnânimo em Maio de 1955, ele declarou anistia geral a todos os prisioneiros políticos. Fidel, Raul, seus companheiros de Moncada e muitos outros foram colocados em liberdade. Fidel ficou por algumas semanas em Havana fazendo discursos críticos ao governo mas, sentindo a polícia de Batista sempre por perto, foi para o México. Lá, ele e outros exilados cubanos formaram o Movimento 26 de Julho, em homenagem ao ataque à Moncada. Castro anunciou publicamente que invadiria Cuba e derrubaria Batista.

No México, Fidel encontrou e recrutou um médico argentino de 26 anos, Che Guevara, que passou a ser seu braço direito. Guevara viajou pela América Latina, e no início de 1954 chegou à Guatemala, um refúgio para os políticos liberais latino americanos. Lá ele viu em primeira mão como uma estação clandestina da CIA, La Voz de la Liberación, quase sozinha derrubou o governo de esquerda eleito do país. Guevara foi embora tanto com uma forte desconfiança dos Estados Unidos como admiração pelo papel do rádio em um conflito.

A vida de Castro não foi um mar de rosas no México. Ele teve que arrecadar fundos de exilados cubanos. Mesmo escondidos, ele e seu grupo, a polícia mexicana, subornada por agentes de Batista, invadiu seu campo, confiscou as armas e os prendeu. Eles compraram um iate e um transmissor a pedido de Guevara, para iniciar a invasão, mas um traidor vendeu tudo! No final de 1956, outra embarcação foi adquirida e o Movimento 26 de Julho estava pronto para derrubar Batista. Oitenta e dois homens seguiram a caminho de Cuba em 25 de Novembro. Entre os suprimentos estava outro transmissor. A revolução teria início.

A SIERRA MAESTRA
Em 2 de Dezembro, os guerrilheiros desembarcaram no leste de Cuba, próximo a Niquero. O destino era a província de Oriente, nas montanhas de Sierra Maestra, a poucos dias de distância. Eles dormiram no dia 5 de Dezembro em um canavial para se preparar para a marcha noturna. Enquanto estavam dormindo, o guia deixou o grupo e delatou a posição ao exército. Quando estavam acordando, o exército chegou com infantaria, aviões e artilharia. Cerca de um terço dos guerrilheiros morreu ou foi capturado imediatamente. Muitos de seus equipamentos, incluindo o transmissor, foi deixado conforme a fuga ocorreu em pequenos grupos. O exército os perseguiu por vários dias e imediatamente massacrou qualquer grupo que se rendesse ou fosse capturado.

Com a ajuda de fazendeiros, os simpatizantes gradualmente se encontraram entre os dias 17 e 19 de Dezembro. Eles eram apenas cerca de 16 a 18 pessoas, mas incluía Fidel, o irmão Raul, Che Guevara e Camilo Cienfuegos. Sintonizando emissoras de Havana no rádio de um fazendeiro ficaram sabendo o que aconteceu com seus companheiros. Apesar da tristeza, eles sorriram ao ouvir informes de que todos eles, incluindo Fidel, foram mortos. O grupo seguiu rumo ao interior das montanhas. Castro emprestou um rádio de outro fazendeiro; as emissoras cubanas eram estritamente censuradas, mas mesmo notícias assim podiam passar informações úteis.

Nos anos seguintes as forças revolucionárias cresceram gradualmente. Eles atacaram postos do exército em cidades pequenas e emboscaram expedições do exército nas montanhas. Por conta dos rebeldes sempre atingirem soldados marchando nas primeiras posições, os soldados logo passaram a se recusar a ficar à frente da coluna. O exército começou a fazer menos incursões às montanhas e se concentrou na defesa das cidades.

Castro dividiu suas forças em diferentes colunas com vários comandantes, incluindo Raul, Che Guevara e Camilo Cienfuegos. Mais colunas foram adicionadas conforme homens se uniram à causa. Cada coluna operava de forma independente em sua área, ocasionalmente unindo forças em operações conjuntas. Várias colunas operaram em Sierra Maestra, a oeste de Santiago, enquanto outras, incluindo a de Raul, operou em Sierra Cristal. Outras foram adicionadas posteriormente nas planícies do norte da província de Oriente e nas montanhas Escambray de Cuba Central. Uma sob comando de Dermitio Escalona, foi formada nas montanhas da província de Pinar del Río a oeste de Cuba.

Com o exército concentrado nas cidades, os guerrilheiros tiveram liberdade para estabelecer acampamentos base. O acampamento de Fidel, centro da atividade revolucionária, começou a construir uma pequena cidade com hospital, escolas e uma pequena usina hidrelétrica. Um jornal revolucionário, “El Cubano Libre” foi publicado usando mimeógrafo. Até mesmo linhas telefônicas entre Sierra Maestra e Sierra Cristal, conectando diversas colunas da guerrilha e vilas próximas foram estabelecidas. O acampamento de Fidel também era o centro de suprimentos dos rebeldes. Um pequeno curtume produzia botas e coldres e um armeiro recarregava cartuchos usados e produzia bombas, granadas, minas e coquetéis molotov a partir de materiais improvisados, como latas e bombas do inimigo não detonadas. Um açougue processava animais furtados de latifúndios e uma pequena fábrica de cigarros atendia a demanda dos fumantes.

RADIO REBELDE
Castro sempre considerou a importância do rádio, mas Che Guevara era o principal proponente de uma emissora clandestina. Guevara sabia que uma emissora era a única forma de falar diretamente ao povo cubano. Guevara reuniu um técnico, um repórter de jornal e dois ex-locutores da popular emissora de Havana, Radio Mambi. Um antigo transmissor seria o suficiente para completar o projeto.

Uma transmissão de teste foi feita no meio de Fevereiro. O transmissor ainda precisava de ajustes, então a transmissão de 20 minutos alcançou apenas alguns metros, com Fidel e alguns poucos rebeldes próximos ao rádio de Che e um camponês de nome Palencho que estava em sua casa em uma encosta como a única audiência. Fidel ficou impressionado. Os trabalhos no equipamento continuaram. Poucos dias depois, em 23 de Fevereiro de 1958, a Radio Rebele foi oficialmente inaugurada em sua primeira transmissão real. Os cubanos passaram a receber as palavras que seriam imortalizadas: “Aquí Radio Rebelde! Aquí Radio Rebelde! Transmitiendo desde la Sierra Maestra en territorio libre de Cuba.”

Em 9 de Abril de 1958, as forças anti Batista em Havana tentou derrubar o governo convocando uma greve geral para paralisar a economia. A Radio Rebelde se juntou para exortar os trabalhadores a parar. Entretanto, poucos Habaneros responderam ao pedido. Os revolucionários urbanos atacaram empresas de energia e levaram ao ar duas estações clandestinas. Sem uma revolta massiva, a rebelião foi rapidamente esmagada.

A falha da rebelião em Abril convenceu Castro que a revolução poderia ser vencida apenas no campo de batalha e as comunicações e propaganda eram pontos chave para a operação militar. Contatos em Miami providenciaram o envio aéreo em segredo de equipamentos de rádio mais avançados. Carlos Franqui, antigo editor de vários periódicos rebeldes foi levado a liderar a Radio Rebelde. Mais pessoas foram recrutadas e a programação expandida. Gradualmente a Radio Rebelde tornou-se o centro de uma vasta rede de emissoras clandestinas revolucionárias.

A Radio Rebelde estabeleceu um serviço regular, todas as noites às 19:00 e 21:00 em 20 metros e às 20:00 e 22:00 em 40 metros. Cada transmissão começava com o hino nacional cubano e o hino do 26 de Julho. A programação ficou mais profissional e incluía “boletins informando as vitórias militares da guerrilha, discursos de comandantes rebeldes, manifestos anti-Batista, poemas patrióticos, músicas do “quinteto Rebelde” e mensagens pessoais a familiares de rebeldes (‘Mamãe, aqui é Pepito. Não se preocupe, estou bem’)”. Quando os revolucionários nas cidades eram presos, a Radio Rebelde transmitia seus nomes o mais rápido possível na esperança de que a Cruz Vermelha e sindicatos intercedessem por suas vidas.

Cada coluna da guerrilha tinha equipamentos de rádio e conforme outras eram criadas, a maioria recebia um transceptor. No auge, existiram 32 emissoras rebeldes no país. As emissoras satélite escreviam material para alimentar a principal. O pessoal da central também juntava os conteúdos também a serem retransmitidas pelas outras. Quando a estação principal era tirada do ar, uma das sub estações maiores assumia. Era uma operação altamente eficiente. As emissoras auxiliares usavam nomes tanto relacionados a suas localizações, como Radio Rebelde Llano como apelidos bem humorados como Barbudos Feroces. Algumas, como a Ocho Chicos Malos, transmitia programas próprios e falsas novelas para enganar o governo.

A rede Rebelde também servia como link radiotelefônico para as colunas da guerrilha, usando o indicativo 7RR ao invés de Radio Rebelde. Mensagens codificadas da 7RR alertavam as colunas de movimentos inimigos e dirigiam as manobras da guerrilha. Às vezes Fidel deixava instruções menos importantes em aberto, para que os ouvintes se sentissem mais próximos à revolução. Transmissões táticas eram tão populares quanto os programas noturnos da Radio Rebelde. Fidel também fazia discuros frequentes, vindo às vezes de locais a dois ou três dias de caminhada.

A revolução era dependente de simpatizantes e exilados cubanos para obter a maior parte do seu financiamento e equipamentos. Os apoiadores de de Castro fora de Cuba criaram a Cadena de la Libertad para manter contatos diários com a revolução e às vezes retransmitia conteúdos da Radio Rebelde. As quatro estações eram Indio Azul e Dos Indios Verdes na Venezuela, Indio Apache no Mexico e Un Muchacho Unido em Miami. Além disso, emissoras comerciais em ao menos em dez países latino americanos retransmitiam ou reproduziam fitas de programas da Radio Rebelde. A venezuelana Radio Continente era especialmente importante para retransmissões regulares pois eram facilmente captadas em Cuba.

GRANDE AUDIÊNCIA
O regime de Batista passou a censurar ainda mais a mídia. Oficialmente haviam poucas batalhas e sempre com vantagem do governo. Estações cubanas usavam de pequenas artimanhas para burlar a censura; por exemplo, executar anúncios específicos após os boletins de notícia tornou-se um pequeno ato de rebelião. Os anúncios eram notados pelos ouvintes, mas raramente notados pela censura. Um dos favoritos era o do sabão Tornillo; ao término das notícias o anunciante informaria, “Não acredite em histórias, mulher – O sabão Tornillo lava melhor que todos.” Anúncios do feijão Bola Roja também eram frequentemente executados após as notícias; bola significava tanto ‘feijão’ como ‘rumor’ na gíria cubana.

Para fechar o cerco, Batista passou a usar jamming contra a Radio Rebelde, que não era muito eficiente e servia para deixar a emissora ainda mais fascinante. Batista até mesmo tentou por um breve período confundir os ouvintes da Rebelde com uma clandestina falsa, La Voz de la Sierra Maestra. Nada conseguiu fazer a Radio Rebelde deixar de ser a mais ouvida de Cuba.

Em contraste com a mídia cubana, a Radio Rebelde informava todas as notícias, boas ou ruins. Batista suprimia a verdade, enquanto Castro se dispunha a divulgá-la. O povo cubano confiava na Rebelde e sua audiência crescia em ritmo constante. Nas cidades e vilarejos as pessoas fechavam as casas à noite para ouví-la. O escopo da audiência da Radio Rebelde surpreendia até mesmo os guerrilheiros, pois podia ser encontrada nos locais mais improváveis. Quando o capitão rebelde Napoleon Bequer foi à colônia de leprosos El Cristo nas montanhas fora de Santiago, seus homens foram aplaudidos. Os pacientes eram ouvintes regulares.

Da mesma forma, prisioneiros políticos da Isla de Pinos ouviam clandestinamente a Radio Rebelde, tanto direto como via Radio Continente. O coronel Ramon Barquin, que tinha liderado uma deserção em Abril de 1956 contra Batista era um dos prisioneiros. “Tudo que ele podia fazer era esperar o anoitecer, quando tirava o radinho transistorizado escondido em seu lençol e colocava próximo à viga de aço que servia como antena. Assim ele podia ouvir informações sem censura do conflito” (Dorschner & Fabricio).

Os Dexistas também sintonizavam a emissora. Muitas frequências foram reportadas na América do Norte, especialmente ao final da tarde. As frequências mais comuns eram 15320 e 14240 kHz.

E A REVOLUÇÃO SE ESPALHA
Embora o foco do Movimento 26 de Julho era a guerrilha em Sierra Maestra, haviam milhares de apoiadores em cidades que doavam dinheiro, forneciam comida, roupas e outros equipamentos. A classe média tornou clubes como Lions e Rotary em centros de apoio à atividades revolucionárias. Unidades urbanas especiais plantava bombas e assassinavam apoiadores de Batista. Padres ajudavam a esconder rebeldes e incluíam mensagens codificadas em seus sermões pelo rádio. O grupo de Castro não agia sozinho. Haviam vários grupos revolucionários urbanos e algumas emissoras clandestinas de curta duração. Uma, A Voz do Exército Rebelde, transmitia por alguns minutos e seu transmissor mudava de localidade após poucos dias. Essas estações ficavam geralmente em Havana ou outras cidades grandes, sempre com transmissões rápidas.

Curiousamente não figurava na lista dos apoiadores de Castro o Partido Comunista de Cuba. Os comunistas preferiam usar canais estabelecidos como sindicatos; para eles, guerrilhas rurais não eram mais que grupos de aventureiros ou bandidos. Às vezes os comunistas colaboravam com Batista e ocasionalmente traíam grupos oposicionistas rivais, incluindo as forças de Castro. Chegavam até mesmo a ocupar posições no gabinete de Batista. Muitos revolucionários cubanos não gostavam ou confiavam no Partido Comunista. Só quando a queda de Batista tornou-se evidente os comunistas se uniram ao movimento revolucionário.

FAZENDEIROS FORAM CRUCIAIS
Entre as forças anti Batista, Castro percebeu que o apoio da população rural era peça chave para a revolução. Tradicionalmente os camponeses não tinham importância na sociedade cubana. A polícia ou militares roubavam o que queriam e os executavam diante da menor reclamação. Quando latifundiários queriam expandir suas propriedades eles subornavam a polícia ou o exército para expulsar os camponeses de suas terras vizinhas.

Castro, entretanto, tratava os camponeses com respeito. Os guerrilheiros sempre pagavam pela comida que pegavam, normalmente o dobro do preço de mercado. Quando invadiam uma fazenda de gado, compartilhavam metade do que obtinham com eles. Os acampamentos rebeldes ofereciam aulas de alfabetização para adultos e atendimento médico gratuito. Em troca, informavam aos guerrilheiros cada movimento do exército. Muitos uniram-se à guerrilha. Outros ajudavam levando suprimentos às montanhas ou plantavam a mais para alimentar os revolucionários.

As forças de Castro também incluíam estrangeiros. Alguns, como Che Guevara, eram ardentes revolucionários; outros eram aventureiros buscando diversão. A maioria era um pouco de ambos. Vários norte americanos lutaram com s as forças Fidelistas. Um deles, William Morgan chegou ao posto de comandante de coluna.

Neil Macaulay, um ex-oficial do exército dos Estados Unidos que serviu na Coreia, juntou-se à coluna de Dermitio Escalona à oeste de Pinar del Río em Setembro de 1958. A coluna de Escalona era a mais isolada da guerrilha: eles não tinham transceptor. “Escalona, entretanto, tinha um receptor de ondas curtas – um magnífico Zenith Transoceanic que se apropriara da casa de um informante – e com isso podia ficar a par da situação em outros pontos da ilha sintonizando as transmissões noturnas da Radio Rebelde. Sempre que possível eu estava no grupo que ficava em volta do rádio do comandante para ouvir as transmissões de Oriente” (Macaulay).

O EXÉRCITO ATACA
Em 24 de Maio de 1958, após um ano e meio de guerra de guerrilha, Batista lançou sua maior ofensiva conta a coluna de Castro. Dezessete batalhões com tanques e suporte aéreo e naval cercaram Sierra Maestra. Seu alvo era o quartel de Castro e a Radio Rebelde. Ele contava com apenas 300 guerrilheiros e as forças de Batista atacaram de forma incessante e durante três semanas empurraram os guerrilheiros para uma área de apenas alguns quilômetros. Mas Castro ainda tinha vantagem nas comunicações – os camponeses o mantinha informado. Ao final de Junho ele contra atacou o 11º Batalhão, que emboscou enquanto descansava em um vale. A força inimiga foi despedaçada; a maior parte dos soldados foi morto ou capturado. Além disso, os rebeldes conseguiram um transceptor de ondas curtas e um livro de códigos.

O peso dessa derrota fez o exército literalmente parar no caminho. A maior parte dos comandantes não tinha estômago para esse tipo de luta; eles preferiam estar nas cidades coletando as propinas. Os soldados ingressavam no exército pois era o único trabalho disponível e não viam razão em morrer por Batista. Embora a vitória estivesse totalmente ao seu alcance, o exército recuou. Durante todo o conflito, os guerrilheiros sempre estiveram em desvantagem numérica, mas seus membros dedicados foram suficientes para enfrentar um exército que era corrupto no topo e desmoralizado em sua base.

Conforme os batalhões restantes faziam planos de retirada, os rebeldes ouviam tudo com o livro de códigos capturado. Eles fizeram emboscadas ao longo das rotas de escape e infligiram ainda mais baixas. Castro também confundia o inimigo transmitindo falsas ordens codificadas para batalhões específicos e esquadrões aéreos. Surpreendentemente, demorou um mês para que o exército percebesse que seu livro de códigos caíra nas mãos dos rebeldes!

A vitória foi relativamente fácil e os guerrilheiros ficaram com cerca de 400 prisioneiros. Embora oficiais corruptos tivessem sido executados, os honestos e soldados de baixa patente eram bem tratados e eventualmente soltos. Esse número elevado precisou de atenção especial, então Carlos Franqui fez contato via rádio com a Cruz Vermelha de Cuba e organizou uma trégua de 48 horas para entregar os prisioneiros. A quantidade de prisioneiros libertos chamou atenção quanto ao tratamento dispensado, que contrastava com as ordens dadas aos soldados em caso de guerrilheiros capturados – tortura e uma bala.

Após a falha em Sierra Maestra, os oficiais de Batista confinaram suas tropas nos quartéis. Conforme a guerra pendia a seu favor, o maior medo de Fidel era que ocorresse um golpe de estado para substituir Batista por um general. Foi comum na história da América Latina movimentos revolucionários perderem seu foco quando uma mudança cosmética era feita no governo. O povo que se opunha ao governo passava a ficar em compasso de espera por novas mudanças pelo novo líder. Geralmente pouco mudava, exceto o rosto do homem no poder.

Ao final de Agosto, Fidel foi à Radio Rebelde para dizer tanto ao exército como ao povo que um golpe não seria suficiente. Toda a estrutura do governo cubano teria que ir embora. Fidel participou de inúmeras discussões sobre este cenário com seus principais conselheiros, incluindo Carlos Franqui. Eles concordaram que em caso de golpe a emissora teria que ir ao ar e dar instruções aos seus apoiadores para manter a batalha.

* Denis Langley complementa: “Embora após 1953 Castro não esperasse por uma mudança pacífica, é importante notar que estava pronto para concorrer às eleições que foram planejadas para 1953, e apenas após o golpe de Batista, que esmagou suas pacíficas aspirações políticas, voltou a planejar a resistência violenta.”

Artigo traduzido mediante autorização. A publicação em qualquer outro meio é expressamente proibida.

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