Rádio atômico

4 10 2015

Adrian M. Peterson

Por um longo período os Estados Unidos conduziram centenas de testes nucleares; níveis altos e baixos, na atmosfera, solo, subsolo e submarinos foram efetuados. Em Julho de 1946 os Estados Unidos conduziram um série de testes nucleares nas ilhas de Bikini, nas Ilhas Marshall, que fica entre o Havaí e as Filipinas.

O atol de Bikini é composto por um conjunto de ilhotas e a área foi escolhida por ser isolada, além de outros fatores, incluindo a baixa densidade demográfica. Os testes de Julho de 1946 foram conduzidos sob o codinome “Operação Cruzamento” e envolveu centenas de navios, aviões e milhares de pessoas. Durante a preparação dos testes  42 mil americanos passaram por Bikini e proximidades para preparar as situações associadas aos os testes atômicos.

Para proporcionar a cobertura pelos jornais, TVs e rádios, cinco navios equipados com todos os tipos de equipamentos eletrônicos que proporcionassem o envio de notícias ao vivo e gravadas  foram enviados para a região.

O primeiro dos cinco navios de comunicação enviados foi o USS “Appalachian”, que foi batizado em Nova Jersey em 29 de Janeiro de 1943. Ele entrou em operação no Pacífico e em 1946 ficou a cargo da cobertura de mídia das explosões no atol de Bikini.

Quando a primeira explosão ocorreu, a 160 metros acima do atol de Bikini em 1 de Julho o “Appalachian” estava ancorado em mar aberto a uma distância segura da área de detonação. O “Appalachian” contava com cinco canais em ondas curtas, mas com baixa potência; O indicativo para o navio foi NCLG.

Por conta da dificuldade de cobertura em ondas curtas a partir do NCLG quando da primeira explosão, o navio foi enviado de volta à Honolulu, onde transmissores com maior potência foram instalados. Quando a segunda detonação ocorreu, em 25 de Julho, o USS “Appalachian” foi ao ar com dois transmissores de 600 W e um de 350 W, ainda que a potência continuasse a ser inadequada para cobertura confiável. Para compensar este problema, o “Spindle Eye” (indicativo NIGF) ancorou em Honolulu na mesma data para servir como retransmissor entre o NCLG “Appalachian” e os Estados Unidos.

Um ano depois dos testes, o “Appalachian” foi retirado de serviço. Dois anos depois foi vendido como sucata.

O segundo navio foi o USS “Mount McKinley”, batizado em Wilmington, Carolina do Norte em 27 de Setembro de 1943. Originalmente chamado “Cyclone”, foi renomeado “Mount McKinley” exatamente três meses depois.

Esta embarcação cargueira também serviu no Pacífico e em 1946 operou com bandeira das Ilhas Marshall na Operação Cruzamento. Um transmissor de 350 W com o indicativo NICO foi ao ar com conteúdos ao vivo dando informações sobre o progresso dos testes de 1 e 25 de Julho. Além disso a estação foi captada com transmissões de um serviço religioso.

Após 34 anos de excelentes serviços prestados, durante os quais esteve em diferentes locais do mundo, o “Mount McKinley” foi vendido como sucata em 1976.

O terceiro navio foi o USS “Panamint”, também batizado em Wilmington, Carolina do Norte em 9 de Novembro de 1943, como “Northern Light”. No início de 1944 ele foi adquirido pela marinha e convertido para navio de comunicações em Hoboken, Nova Jérsey e rebatizado como USS “Panamint”. Foi amplamente utilizado no Pacífico.

Em 1946, o “Panamint” foi enviado às Ilhas Marshall onde serviu como quartel flutuante para congressistas, cientistas e observadores das Nações Unidas, muitos dos quais fizeram transmissões a partir dele para cobertura da mídia dos acontecimentos. Ele foi ao ar com o indicativo NXHC.

No dia do segundo teste atômico (submarino), em 25 de Julho, os detalhes foram transmitidos ao vivo por Clete Roberts a partir do USS “Panamint”. Tal transmissão fez parte de um conjunto levado ao ar por toda a mídia envolvida, incluindo a Voz da América.

Em 1947, o “Panamint” deixou de ser usado pela marinha e vendido como sucata quatorze anos depois.

O quarto navio a participar dos testes atômicos foi o USS “Blue Ridge”, batizado em Kearny, Nova Jersey em 7 de Março de 1943. Em Outubro de 1944 participou do desembarque norteamericano nas Filipinas.

O “Blue Ridge”, usando o indicativo NTAE, também participou das comunicações em Julho de 1946. Quatorze anos depois ele foi vendido como sucata.

O próximo foi o USS “Spindle Eye”. Planos para este novo navio foram feitos em 1944 e originalmente seria usado durante a invasão do Japão.

O “Spindle Eye” entrou em operação em 25 de Maio de 1945. Tinha cerca de 103 metros de comprimento e 15 de largura, com um peso de 4 mil toneladas.

Originalmente o “Spindle Eye” foi projetado para ser um cargueiro do exército, mas foi adaptado rapidamente em Seattle com a instalação de diversos equipamentos eletrônicos. Nele foram instalados dois estúdios, seis transmissores de ondas curtas, oito antenas e 112  máquinas de escrever. Quatro dos transmissores tinham potência de 3 kW feitos pela Wilcox e os demais tinham 7,5 kW fabricados pela RCA.

A primeira série de transmissões do “Spindle Eye” foram feitas a partir das docas de Seattle usando um transmissor de 7,5 kW da RCA na primeira quinzena de Setembro. Em 19 de Setembro o navio seguiu rumo ao Japão.

O “Spindle Eye” chegou à Baía de Tóquio em 15 de Outubro e assumiu os serviços de rádio previamente a cargo do indicativo WVLC à bordo do “Apache”, que ainda estava nas Filipinas. O “Spindle Eye” foi inspecionado pelo General Douglas MacArthur, e depois ele fez uma viagem de teste pelas águas da China e Coreia. Resultou que os equipamentos eletrônicos funcionavam bem.

No retorno ao Japão antes do Natal, o “Spindle Eye”, já com o indicativo WVLC, começou uma série de transmissões para a Voz da América e Serviço de Rádio das Forças Armadas. Além disso, os julgamentos de crimes de guerra em Tóquio em 1946 também foram retransmitidos por ele para os Estados unidos para posterior redifusão em cadeia nacional.

Foram feitos diversos planos para cobertura ao vivo das primeiras detonações em 1 de Julho de 1946. Navios, aviões e veículos foram colocados de prontidão em locais estratégicos das Ilhas Marshall e cercanias. Um total de 150 transmissores e 300 receptores foram usados para a coordenação da detonação atômica e transmissão ao vivo de notícias. Um dos maiores repórteres na ocasião foi Oliver Read, editor do jornal Radio News, com três grandes artigos publicados.

Ao “Spindle Eye” foi dada a tarefa de coordenar todas as notícias da operação, incluindo transmissões de voz, despachos de notícias e fotos. Para isso ele ficou nas proximidades da ilha Kwajalein e o indicativo WVLC foi substituído por NIGF. As transmissões tinham como destino as estações da RCA em Bolinas, Califórnia e Press Wireless, em Los Angeles, para pronta retransmissão.

Em 1 de Julho as transmissões começaram às 03:30 (hora local) com informações para a NBC e CBS. Às 09:00, a primeira bomba foi lançada no atol de Bikini de um avião B29 da força aérea identificado com um grande “B” em sua cauda. Os dois transmissores de voz foram ao ar, tanto o RCA de 7,5 kW como o Wilcox de 2,5 kW. Posteriormente o Wilcox foi usado para transmissões de fotos recebidas da estação do exército WTJ, de Honolulu, e retransmitidas à estação do exército em São Francisco, WVY.

Apesar dos planos grandiosos de cobertura ao vivo dos testes, em certas ocasiões as transmissões de voz eram difíceis de entender. Isso ocorreu devido ao fato de que os transmissores de ondas curtas à bordo dos diversos navios na área tinham pouca potência.

Quando o teste submarino ocorreu, o “Spindle Eye” estava em Honolulu, servindo como ponto de retransmissão entre os as ilhas Marshall e os Estados Unidos. No dia 25 de Julho, ele recebeu informes de Bikini e os retransmitiu para a RCA em Bolinas e à Press Wireless em Los Angeles para posterior distribuição.

Depois dos testes, o Spindle Eye retornou à costa oeste dos Estados Unidos e o uso do transmissor WVLC-NIGF chegou ao fim no final de 1946. Um ano depois ele foi renomeado como “Sgt Curtis F. Shoup”, usado no Pacífico e posteriormente no Mediterrâneo. Ele foi vendido como sucata em 9 de Maio de 1973.

Durante tais testes, diversos navios foram envolvidos nas transmissões de rádio e retransmissão. Cinco foram especialmente designados como navios de comunicação naquela operação:

USS Spindle Eye – NIGF – 4 x 3 kW e 1 x 7½ kW

USS Appalachian – NCLG – 1 – 350 watts e 2 x 600 watts

USS Mount McKinley – NICO – 1 x 350 watts

USS Panamint – NXHC – baixa potência

USS Blue Ridge – NTAE – baixa potência

Sabe-se que algumas poucas cartas QSL foram emitidas para as transmissões da estação WVLC-NIGF e que a Voz da América também emitiu QSLs confirmando a retransmissão dos testes atômicos no atol de Bikini. Cartões especiais foram impressos para homenagear os testes e mostravam a representação artística de um navio afundando.

Alguns poucos Dexistas dos Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália receberam confirmações por carta e outros o QSL mostrando uma representação artística das ilhas do Pacífico com um navio afundando nas proximidades.

Artigo traduzido mediante autorização do autor. A publicação em qualquer outro meio é expressamente proibida.


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