Dexismo na República Democrática da Alemanha

20 07 2014

Eckhard Röscher

Nasci na República Democrática da Alemanha (DDR) em 1957 e neste artigo gostaria de compartilhar as dificuldades de praticar o Dexismo durante a era comunista.

Comecei no hobby em 1972, quando tinha 15 anos. Na época eu colecionava cartões postais de todo o mundo. Um amigo tinha alguns cartões e eu queria trocar com ele. Ele me perguntou se tinha cartões QSL…

Eu nunca tinha ouvido falar sobre isso e fiquei curioso. Ele então mostrou-me alguns da Rádio Netherland, Voz do Vietnã, Rádio Bulgária, etc. Imediatamente fiquei interessado em como obtê-los. Ele então passou seu conhecimento quanto ao feitio de informes de recepção, código SINPO, etc.

Meus pais tinham um receptor valvulado antigo modelo “Stradivari 3”. Ele tinha três faixas, com ondas curtas de 49 a 16 metros. Com ele tentei minhas primeiras captações, primeiramente em Alemão e depois em Inglês. Após algumas semanas recebi meu primeiro cartão QSL – da Rádio Bulgária. Depois vieram outros cartões, da Rádio Polônia, Rádio Áustria, Rádio Canadá, Rádio Moscou, etc.

Foi um início muito divertido. Infelizmente era muito difícil obter informações sobre o hobby. Não haviam clubes ou boletins. A única chance era ouvir programas do gênero ou em trocas de ideias com meu amigo. Pouco depois ele abandonou o hobby, então minha única opção passou a ser os programas DX. Da Rádio Suécia eu recebia a versão impressa do programa “Sweden calling DX-ers”. Durante esse período eu também recebia cartas da aduana informando que haviam confiscado cartas da Rádio Suécia. Essa era outra dificuldade para a prática do Dexismo na Alemanha Oriental.

Durante tais programas ouvi várias informações sobre emissoras em ondas tropicais. Infelizmente não era possível captá-las com meu receptor. Também não era possível adquirir um rádio com tal faixa na loja do governo. No começo da década de 1980 alguns rádios portáteis de fabricação russa foram disponibilizados, mas eles nao eram muito bons. Por isso a dificuldade de recepção nessa faixa era muito grande.

Em 1972 eu também ouvia a programação da famosa estação pirata Radio Nordsee International. Na época foi a primeira e única emissora do gênero captada por mim. No início da década de 1980 captei a Radio Nolan International, estação pirata da Holanda. Depois disso captei outras emissoras piratas nas faixas de 48 e 41 metros. Enviei vários informes de recepção, mas o problema era o custeio de retorno. A Alemanha Oriental era país membro da União Postal Internacional, mas não era possível comprar IRCs nos correios do país. Minha única opção era enviar selos do meu país ou postais. Em muitos casos não obtive resposta aos meus informes.

Em 1985 um funcionário do serviço secreto (Stasi) me “visitou”. Na época eu tinha encerrado meus estudos e trabalhava como engenheiro em uma empresa local. Antes da visita ele ligou e perguntou quando poderíamos nos encontrar, pois pretendia me oferecer um emprego em minha antiga universidade.

A propósito, esse tipo de convite não era comum, principalmente após vários anos longe da universidade. Por essa razão fiquei desconfiado. No encontro ele perguntou quais eram minhas preferências no Dexismo. A impressão que tive é que ele já tinha conhecimento sobre o hobby.

Outra pergunta foi se eu costumava ouvir os programas da Rádio Canadá Internacional. Eu disse que que sim. A razão é que o nosso povo tinha permissão para passar as férias em Cuba, e o voo para lá tinha uma escala no Canadá. Isso abria uma possibilidade de dizer “adeus” aos comunistas.

Até a queda do regime comunista eu não tive sequer ideia do que o homem da “Stasi” queria. Decidi ver o que os documentos oficiais falavam ao meu respeito quando os arquivos foram abertos. Primeiramente tive de provar que estava vivo. Depois de verificarem meu passaporte e carimbá-lo fiz a solicitação a “Comisão Federal para os Registros do Serviço de Segurança de Estado da Antiga Alemanha Oriental”.

Após mais de dois anos recebi uma carta informando que poderia ver os meus documentos da Stasi. Encontrei mais de 100 páginas sobre mim. Eram cópias de meus informes de recepção e cartas de emissoras. O arquivo era mais organizado que meus registros! Em 1985 recebi um cartão QSL da Voz da América via Embaixada Americana em Berlin Ocidental. Isso levou a um membro da aduana perguntar à Stasi o que devia acontecer comigo.

Outra razão pela qual quis consultar meus documentos era a de buscar confirmações. Como tal material não estava no mesmo lugar eu teria que aguardar outros dois anos. Não tentei isso novamente.

Em 1993 comprei um receptor “Satellit 700” da Grundig e uma nova era começou para mim. Agora eu posso ouvir ondas tropicais, tenho condições de enviar custeio de retorno e a maior parte das cartas enviadas a mim chegam normalmente.

Esta é minha pequena história repleta de dificuldades para a prática do Dexismo na era comunista.

Eckhard Röscher em seu shack ouvindo ondas tropicais em seu “Satellit 700” em 1999.

Artigo traduzido mediante autorização do Danish Shortwave Club International. A publicação em qualquer outro meio é expressamente proibida.


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2 responses

20 07 2014
Paulo

Muito legal este artigo, porque vivi esta epoca, e sendo brasileiro, eu nunca escrevi uma carta para uma Radio de pais comunista, justamente para não entrar nestas listas de investigação pessoal. Este camarada foi corajoso ou imprudente, eu não faria o que ele fez! Ainda bem que não aconteceu nada com ele, talvez o amigo dele largou o hobby devido a isto, medo de perseguição.

17 08 2014
Ivan

Paulo,

Grato pelo comentário.

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