O primeiro “jammer”

3 05 2014

Adrian M. Peterson

Os ouvintes de ondas curtas de hoje tem amplo conhecimento sobre o jamming existente contra certas emissoras. Em alguns países do Oriente Médio e Extremo Oriente é comum o jamming contra transmissões consideradas indesejáveis de outros países, tanto em ondas médias como curtas.

O procedimento normal é sintonizar o transmissor de jamming no mesmo canal ocupado pela transmissão indesejável e modular o equipamento com ruído, música ou outro conteúdo do gênero. Desta forma é possível ou mesmo impossível para ouvintes do país de destino ouvir a programação da emissora em questão.

Durante a Guerra Fria, ouvintes de ondas curtas de todo o mundo sofreram com os diversos jammings existentes ao longo de todas as faixas internacionais. A história do jamming data do ano de 1948.

Na noite de 29 de novembro de 1988 a União Soviética encerrou esse tipo de transmissão sobre emissoras estrangeiras. Com isso chegou ao fim o uso extensivo do jamming, algo que perdurou por 40 anos. Na época que a URSS desligou sua grande rede de estações de jamming, existiam mais de 1600 transmissores com tal finalidade em 120 centros.

Historiadores afirmam que o primeiro jamming surgiu na década de 1920. Na época, Berlin interferia nas transmissões da Rádio Komintern, de Moscou.

Na época, a emissora moscovita ia ao ar com 40 kW em 1450 metros (207 kHz) com o indicativo RA1. A torre de transmissão ficava no alto da história e famosa Torre Shukov, a mais de a mais de 150 metros de altura, no número 37 da Rua Shabolovskaya.

Entretanto, a história do jamming de transmissões de rádio vai muito além disso. Na época das experiências feitas por Guglielmo Marconi, foi descoberto que quando dois transmissores em localidades próximas iam ao ar no mesmo horário resultava com que o Código Morse de ambas transmissões ficasse totalmente ininteligível. Esse caso simples e não intencional de jamming ocorreu pois as transmissões naquela época não eram sintonizadas e em uma faixa muito larga.

Em setembro de 1899, Marconi visitou os Estados Unidos à convite do jornal Tribuna de Nova Iorque. Foi definido que ele enviaria informativos em Código Morse sobre o progresso da 10º America’s Cup, uma corrida de iates entre dois competidores, o norteamericano “Columbia”, de propriedade financista J. P. Morgan e o britânico “Shamrock”, do empresário do chá Sir Thomas Lipton.

De forma a cobrir a corrida em sua passagem pela costa de Nova Jérsei, Marconi instalou um transmissor no navio “Ponce”, da Puerto Line, e no “Mackay Bennett”, próximos ao Farol de Sandy Hook. Durante as três etapas da corrida, que durou duas semanas e meia, Marconi enviou om sucesso informações por telegrafia à Tribuna de Nova Iorque. O “Columbia” venceu de forma absoluta as três etapas.

Dois anos depois ocorreu uma reedição desta competição no mesmo local e entre os mesmos participantes, com J. P. Morgan no mesmo “Columbia” e Lipton em um novo iate, o “Shamrock 2”. Devido ao sucesso de Marconi no envio de notícias dois anos antes, duas outras empresas participaram do evento.

Os equipamentos de Marconi foram instalados no navio “Mindora”, com estação em terra no farol Navesink Twin e os boletins enviados por código Morse a Associated Press.

Outra empresa, de propriedade de Lee de Forest, instalou seus equipamentos em uma antiga escuna, o “Maid of the Mist”, que foi deslocado pelo rebocador “William J. Sewell”. Os boletins de de Forest foram transmitidos à Publishers Press Association.

A International Wireless Telegraph também instalou equipamentos à bordo de um navio e a estação base em Galilee, na costa de New Jersey. Suas transmissões em telegrafia às vezes produziam o efeito parecido ao de um jamming contra as estações de Marconi e de Forest.

Inicialmente ocorreram problemas entre as estações de Marconi e de Forest devido ao fato de ambas usarem equipamentos não sintonizados, mas acabaram chegando a um acordo sobre o horário das transmissões. E, novamente, o “Columbia” venceu o “Shamrock 2”.

Em mais dois anos ocorreu outra edição da America’s Cup, a 12ª desde sua criação em 1851, quando o iate “America” venceu a corrida em torno da Ilha de Wight; razão esta para o nome “America’s Cup”. No evento de 1903, o iate norteamericano “Reliance”, de propriedade de outro financista, Cornelius Vanderbilt, competiu contra o britânico “Shamrock 3”, de Sir Thomas Lipton. Durante este evento ocorreu alguma espécie de jamming deliberado de terceiros.

Tanto a Marconi como a empresa de Lee de Forest instalaram equipamentos em navios alugados de forma que pudessem transmitir as notícias. Nesta oportunidade houve uma terceira empresa, do Dr. Gustav P. Gehring, a International Wireless Telegraph Company, que possuía uma potente estação no farol Navesink Twin Lights Lighthouse.

Foi combinado que a estação de Gehring transmitiria traços longos e que eles indicariam vários tipos de informação sobre a competição. Ainda que eles fossem destinados a passar informações, seu propósito real era interferir nas transmissões das duas outras empresas, a Associated Press e Publishers Press Association.

Os resultados da 12ª America’s Cup foram de que o iate norteamericano “Reliance” venceu três etapas da corrida de 1903 race e nem a AP ou PPA receberam informações via rádio. Este foi o primeiro caso conhecido de interferência planejada e deliberada de comunicações. Tudo isso há mais de 100 anos…

Artigo irradiado no programa Wavescan e traduzido mediante autorização. A publicação em qualquer outro meio é expressamente proibida.


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