Sexta-feira 13, meu dia de sorte

5 04 2014

Mika Mäkeläinen

Agora é a hora, pensei. Se era possível captar uma emissora do Pacífico Sul, na sexta-feira, 13 de novembro de 1998, as condições pareciam ideais. A boa recepção de estações do Alaska e Hawaii indicavam que o caminho sobre o Polo Norte estava aberto. Estações do extremo leste da Rússia em ondas curtas estavam estranhamente fortes. Comecei a buscar em determinadas frequências até que um sinal fraco em 1017 kHz chamou minha atenção.

Estações de ondas médias do Pacífico sempre estiveram entre os alvos mais valiosos para os Dexistas finlandeses. Meus primeiros 18 anos de hobby resultou em 16 conformações do Hawaii e 3 da Austrália – até a madrugada de 13 de novembro de 1998.

O último dia da DXpedition LEM121 começou com condições abaixo do esperado para a América do Norte durante a noite. O nascer do sol na Lapônia é tipicamente o melhor horário para escutas de emissoras do ocidente e tive a sorte de identificar algumas dos Estados Unidos como a KTOP em 1490 kHz. Também captei algumas estações europeias interessantes como a Sud Radio em 819 kHz e RNE Monforte de Lemos com programação regional para a Galícia em 972 kHz.

Mas, como as condições pioraram rapidamente, decidi dedicar-me à escuta de ondas curtas e terminei com o encerramento da transmissão do serviço regional Tikhy Okean, a partir de Khabarovsk, em 7210 kHz. Coincidentemente o nome significa Oceano Pacífico. Às 0900 UTC a Tikhy Okean foi substituída pelo boletim de notícias nacional Vesti e então decidi mudar de faixa.

A chave é o norte
A faixa de AM estava em grande parte silenciosa, com quase nada do ocidente. Ainda assim, 15 emissoras do Alaska foram captadas, assim como várias do Hawaii. Era uma quantia pouco comum, mas ainda não havia encontrado nada novo. Também percebi que não apenas Khabarovsk como outras estações do extremo leste russo estavam chegando com sinal mais forte que nos demais dias. Tudo que eu tinha era uma situação em comum: a direção dos sinais, que vinham pelo Polo Norte, um caminho difícil e geralmente silenciado por distúrbios magnéticos. Tal dia também foi excepcional pois o índice A foi de apenas 1 a 44.

Tudo isso levou-me a tentar o impossível – buscar emissoras ainda mais distantes do Pacífico. Percorri a faixa, que é ocupada em intervalos de 9 kHz e que no momento parecia oferecer apenas alguns sinais fracos da Europa. Verifiquei no WRTH frequências em potencial do Pacífico Sul até que em 1017 kHz ouvi uma música que imediatamente fez com que sentisse arrepios. Já tinha ouvido esse tipo de música em emissoras regionais de ondas curtas da Papua Nova Guiné!

Olhando rapidamente o WRTH verifiquei que não havia emissora da Nova Guiné em tal frequência, mas Tonga. Eram 0935 UTC. Informei ao meu amigo Jim Solatie. Ambos estávamos descrentes da escuta, mas Jim começou a buscar outras emissoras da região enquanto eu gravava aquele sinal fraco, que ocasionalmente ficava totalmente inaudível para então ganhar força após uma longa ausência.

Pensei em outras possibilidades, incluindo Taiwan, que me enganou ao seguir sua programação por um bom tempo durante outra DXpedition, mas nenhuma das emissoras que ocupavam a frequência coincidiam com o que ouvia. O idioma da locutora levou-me a pensar que tratava-se de Pidgin. Conforme pude ver depois o idioma era Tonganês, não muito parecido com o que imaginei, mas com algumas semelhanças. Percebi a presença de algumas palavras em Inglês, mas fora isso o restante da fala era totalmente incompreensível para mim.

Às 0945 o programa musical deu lugar a um que inicialmente imaginei tratar-se de noticiário ou atualidades. Soube depois por meio de um contato telefônico com a Tonga Broadcasting Commission que era um programa de mensagens direcionado a pessoas vivendo em ilhas diferentes, bastante parecido com os de emissoras andinas. Soube também que as mensagens foram lidas pela locutora-chefe, Ms. Mele Heimuli, que aposentou-se em 1999. Ele continuou na hora cheia sem nenhum tipo de identificação. O programa musical retornou com conteúdo comum a emissoras do Pacífico. O sinal permaneceu mais ou menos audível até cerca de 1030 UTC, quando deixou de ser captado.

Nada mais da região
A maior parte do nosso grupo usou dois receptores e dois gravadores. O sinal era mais audível com minha antena de 800 metros direcionada para o extremo oriente, a 45 graus. A antena voltada para o Alaska resultava em um sinal mais fraco, sendo que nas demais ele era totalmente inaudível. Ainda estava em dúvida, pois por mais que muito do que tinha ouvido me levasse a crer que seria a emissora de Tonga, não havia identificação, então eu não tinha como comemorar. Mesmo assim tinha material suficiente para um informe tentativo que enviei assim que retornei da Lapônia.

Enquanto isso, Jim não teve sorte. Algumas das emissoras da região já haviam saído do ar e outras simplesmente não eram audíveis. Mas, no dia seguinte, após as 1245 UTC, captei a emissora KTWG de Guam em 801 kHz, algo raro e outro indicativo das condições favoráveis de recepção de estações do Pacífico naquele período. Algumas emissoras do Japão e Filipinas também foram identificadas, mas nada sensacional.

Informe perdido no oceano
Meu primeiro informe, enviado por correio expresso, foi extraviado. A outra grande captação do dia, KTWG, rendeu um cartão QSL com uma amável carta confirmatória do programa Turning Point. A virada na minha caçada pela confirmação estava para acontecer. Estava ansioso por não saber se havia captado Tonga ou não.

A3Z - 2Enviei uma gravação ao Dexista neozelandês Paul Ormandy que tentou tirar alguma informação do seu conteúdo contactando pessoas que falassem Tonganês, mas sem êxito.

Em Março de 1999 reenviei o informe e posteriormente um pedido via fax.O Engenheiro Chefe Sioeli Maka Tohi enviou uma amável confirmação pelo mesmo meio e posteriormente recebi por correio seu tradicional cartão QSL com o indicativo A3Z.

Sioeli Maka Tohi confirmou meu informe e disse que os detalhes estavam de acordo com o resumo do programa. Posteriormente também disse que havia reconhecido os locutores da gravação. Finalmente! A emissora nunca tinha sido captada na Europa em AM. Para mim Tonga foi o rádio-país de número 200 confirmado, de acordo com a lista do Finnish DX Association. Uma recompensa bastante adequada para a situação.

A nação e a emissora
Tonga é uma monarquia parlamentar com cerca de 110 mil habitantes espalhados em dezenas de ilhas espalhadas por 750 km². A capital é Nuku’alofa e fica na lha principal, Tongatapu. Assim como a maior parte das pequenas nações do Pacífico, Tonga é relativamente pobre, tendo um PIB per capita oito vezes menor que o da Finlândia.

A A3Z Rádio 1 opera em 1017 kHz, com uma potência de 10 kilowatts, e é o único transmissor de AM no país. Tanto a emissora pública Tonga Broadcasting Commission (TBC) – conhecida como Chamado das Ilhas Amigas – e suas competidoras privadas possuem transmissores em FM. Até o momento há apenas canais privados de televisão, mas a TBC planeja construir uma estação. O projeto original tinha como objetivo a inauguração em Novembro de 1999, mas foi adiado, conforme informações do Engenheiro Chefe, Maka Tohi.

Até 1992 a TBC operou também um transmissor de ondas curtas com 1 kW que nunca foi captado na Finlândia. Ele está danificado e não há planos de reparo no futuro, pois o AM cobre todo o país.

A informação de contato presente no World Radio TV Handbook é válida. Em 2000 a emissora teve um website, inclusive com identificações de suas emissoras e a possibilidade de compra de souvenirs, mas infelizmente foi descontinuado no começo de 2001.

A Tonga Broadcasting Commission possui 60 pessoas em seu quadro de funcionários para manter no ar as duas frequências, ambas durante cerca de 18 horas por dia. As transmissões são em Tonganês e Inglês, com retransmissões da BBC, Rádio Austrália e Rádio Nova Zelândia. Curiosamente a emissora não é mantida por taxas ou orçamento estatal, mas por anunciantes e lucros de uma loja de eletroeletrônicos de propriedade da TBC!

A A3Z foi fundada em 1960 para proporcionar um meio de comunicação entre as pessoas das ilhas mais remotas. Mesmo depois da chegada do telefone a emissora cumpre um papel muito importante. Os horários das transmissões são distribuídos em igrejas, comunidades e organizações cívicas, pois a A3Z é a única estação que que cobre todo o país – e, como pode ser visto, ocasionalmente vai muito além!

Recepção melhor em plena luz do dia
A distância da Lapônia até Tonga é de aproximadamente 14500 km, muito mais até o Hawaii (cerca de 9800 km), mas menos que até a Nova Zelândia. Como exemplo, uma estação neozelandesa de ondas médias a partir de Wellington, a mais de 16000 km, já foi captada na Finlândia. Entretanto, Tonga está muito mais ao norte tendo como referência a Lapônia, o que requer condições diferentes de recepção.

Um bom planejamento de horário pode ajudar na conquista de outras escutas do Pacífico. Em tese, Tonga e outros países da região podem ser captados até mesmo antes das 0930 UTC. O pôr-do-sol em Tonga em meados de Novembro ocorre às 1857, horário local, equivalente a 0557 UTC. Então seria interessante a tentativa pois há todo um caminho de escuridão entre a Finlândia e Tonga em comparação às 0930 UTC, quando na Lapônia já é dia e o sinal precisa passar  por centenas de quilômetros sob luz do sol.

Entretanto, o que faz das 0930 UTC um horário muito melhor que o das 0600 UTC é que neste os sinais do oeste da Europa ainda chegam muito fortes e mesmo com uma antena direcional é difícil evitar a interferência. Já no período das 0930 às 1030 UTC o sol está brilhando sobre toda a Europa e os sinais interferentes são mais fracos que em qualquer outro horário – permitindo a captação de emissoras distantes e fracas. Fique atento no próximo inverno – quem sabe outras ilhas possam ser ouvidas mundo afora?

Artigo traduzido mediante autorização do autor. A publicação em qualquer outro meio é expressamente proibida.

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