Dexismo em Ondas Tropicais: onde, quando, porquê, o quê e como

7 09 2013

Don Moore

Para a maior parte das pessoas a frase “banda tropical” leva a imagem vívida de rapazes sem camisa tocando calypso. Mas, para os Dexistas mais experientes essas duas palavras representam a parte mais desafiadora e agradável do nosso hobby. Também remetem às memórias das melhores captações, QSLs favoritos, músicas exóticas e escutas durante as madrugadas. Para muitos Dexistas as ondas tropicais são a essência do hobby. Se você ainda não desfrutou dessa faixa tão fascinante, é hora de entrar na festa!

Onde…
estão as ondas tropicais? Existem três intervalos de frequências diferentes: 2300 –  2495, 3200 – 3400 e 4750 – 5060 kilohertz. Acordos internacionais de longa data separaram essas frequências para estações de radiodifusão localizadas entre os Trópicos de Capriórnio e Câncer. A maioria, mas não todos os países seguem essas regras. A exceção mais comum são emissoras de radiodifusão “fora de faixa” que usam frequências adjacentes alocadas a outros serviços. Um exemplo são as dezenas de que operam entre 5200 e 5700 kHz. Em alguns países como Vietnam e Indonésia há até mesmo estações governamentais no segmento. Em outros, como Peru e Bolívia em especial, emissoras privadas em regiões remotas simplesmente ignoram as regras e os governos não possuem pessoal, capital ou interesse em fechá-las. Então, para todos os efeitos as ondas tropicais podem ser consideradas como tudo entre os 2000 e 5900 kHz. Além disso, há muitas emissoras menores na região dos 7500 kHz que igualmente podem ser consideradas como de ondas tropicais.

A segunda exceção é que nem todas as emissoras que operam em ondas tropicais estão nos trópicos. Durante décadas, China e Rússia tiveram várias nesta faixa. Uma das estações soviéticas desta faixa ficava em Murmansk, no norte do Círculo Ártico! Recentemente, algumas norteamericanas favoreceram-se de lacunas na legislação para obter licenças da FCC para transmitir nela ou nas cercanias. Então, as emissoras que transmitem em ondas tropicais não são necessariamente de regiões tropicais.

Quando…
podem ser feitas boas escutas em ondas tropicais? A palavra chave é escuridão. A propagação a longa distância ocorre quando a maior parte ou todo o caminho entre o transmissor e o receptor estiver sob escuridão. Isso significa que os melhores horários situam-se a cerca de duas horas antes do pôr do sol a duas horas após o nascer do sol local. A estação captada deve estar em uma localidade sob escuridão ou próxima disso. Durante o inverno há menos horas de sol que em qualquer época do ano, o que significa mais horas para o Dexismo em ondas tropicais. O verão corresponde ao inverso. Igualmente os níveis de estática ficam mais baixos no inverno e mais altos no verão.

Por conta da necessidade de escuridão, existem períodos em particular ou janelas a cada dia para a escuta de emissoras de ondas tropicais de regiões diferentes. Por conta da América Latina estar ao sul da América do Norte isso é mais simples. Em qualquer horário que esteja escuro ou próximo disso em sua região será provável a escuta de alguma emissora latinoamericana. Entretanto, a maior parte das emissoras desliga os transmissores às 0400 UTC e algumas poucas os ligam antes das 0900, então não há muito o que ouvir no meio da noite.

Há duas janelas para a escuta de emissoras africanas. A primeira começa uma ou duas horas antes do pôr do sol na localização do Dexista (na América do Norte) e vai até cerca de 2400 UTC, horário em que a maior parte delas desligou os transmissores. As do leste africano saem do ar por volta das 2000 UTC. Quanto mais a oeste o ouvinte estiver, mais curtas e tardias serão as janelas. Na costa oeste não existe a primeira janela. A segunda janela começa por volta das 0300 quando as emissoras do leste começam a ir ao ar e vai até o nascer do sol na localidade transmissora. Elas podem ser ouvidas por uma hora ou mais ou até que a madrugada termine. As últimas, no oeste, acabam desvanecendo por volta das 0700 às 0800, dependendo da época do ano. Mesmo essa janela sendo aberta para toda a América do Norte, o sinais geralmente são mais fracos a medida que o receptor está em direção a costa oeste.

O terceiro alvo principal reúne o leste e sul da Ásia e Pacífico, para o qual há uma janela principal pela manhã. Após o anoitecer cobrir a costa oeste, ela se moverá gradualmente pelo Pacífico, criando caminhos de recepção por onde vai. A área vai da Austrália à Mongólia e do Paquistão à Vanuatu – então há bastante variação tanto geograficamente como sazonalmente. Em linhas gerais, alguma parte da região estará sob escuridão entre 0800 e 1500 UTC. Por conta do nascer do sol na América do Norte, os Dexistas da costa leste possuem a janela mais curta, que termina por volta das 1200 UTC e os da costa oeste possuem a mais longa (e com sinais mais fortes). Durante o inverno, os Dexistas da costa leste (e, com menos extensão, os do meio-oeste) podem beneficiar-se da janela do fim de tarde para partes do leste e sul da Ásia por volta das 2100 a 2200 UTC.

Naturalmente as coisas não são resumidas a apenas ligar o rádio durante essas janelas. A recepção em ondas tropicais tende a ser melhor durante a grayline. O quê é isso? Apenas um meio-termo entre nascer e pôr do sol (e vice-versa). Deixando o lado técnico de lado, resume-se a uma maior “excitação” da ionosfera que ocorre durante a transição entre dia e noite (e vice-versa). Se o ponto de escuta e o transmissor estiverem no período de nascer ou pôr do sol a recepção será melhorada. Se ambos pontos estiverem sob grayline a combinação será perfeita. Entretanto, isso não ocorre com absoluta linearidade. Um exemplo: Iowa e Bolívia estão sob grayline por volta das 1100 UTC em Junho e às 2230 UTC em Dezembro. Essa determinação pode ser feita por softwares como o Geoclock.

Por quê
os Dexistas são tão fascinados pelas ondas tropicais? A maior razão é o desafio. Grande parte das emissoras que operam nesta faixa o fazem para uma audiência no próprio país e com equipamentos de baixa potência. Poucas são as que operam com mais de dez kilowatts e muitas com menos de um kilowatt. Estações internacionais de radiodifusão com seus 500 kW definitivamente não configuram o mesmo desafio! E, diferentemente das grandes emissoras, poucas das que transmitem em ondas tropicais utilizam antenas que maximizam a propagação à longa distância. Várias são otimizadas para cobertura local, e em alguns casos até mesmo sem planejamento algum neste sentido. Em muitas emissoras andinas é comum encontrar apenas um fio entre duas árvores sem nenhuma preocupação com o casamento com o transmissor. Adicione a isso alguma estática e fading e você terá o melhor em termos de desafio.

Outra razão para a preferência pelas ondas tropicais é o que pode ser ouvido. Por várias razões esta faixa não é o melhor lugar para a propagação a longa distância. Isso não quer dizer que seja impossível ouvir emissora distantes – longe disso! Mas, se uma emissora internacional de grande porte quiser um sinal consistente em sua área de destino todos os dias, as frequências mais altas funcionarão melhor. Por isso há poucas estações internacionais nas ondas tropicais.

A maior parte dos países não possui emissoras internacionais com programas em Inglês para audiência em outros países, mas certamente possui algum tipo de transmissão doméstica, geralmente em ondas tropicais. É impossível registrar a escuta de mais de setenta ou oitenta países sem ouvir ondas tropicais. Com a ajuda desta faixa, muitos Dexistas chegaram a marca de 200 países e mais de 1000 emissoras.

Para encerrar, a programação, que é muito diferente das emissoras internacionais. Por conta da maior parte das que transmitem em ondas tropicais terem como alvo o próprio país, esta é sua chance de ouvir o rádio como é em muitas partes do mundo. Ele pode até não ser sempre profissional, mas possui uma qualidade autêntica. Obviamente a maior parte da programação não será em Inglês. Se você conhecer um pouco de Espanhol ou Francês, será de grande valia. Independente disso, muito do que será ouvido transcende a barreira do idioma. Não há nada comparável a empolgação de uma transmissão de futebol no Brasil – é fácil sentir a atmosfera mesmo sem conhecer uma única palavra em Português. A música também sobrepõe qualquer diferença de idioma e sua variedade é imbatível.

O quê
é necessário em termos de equipamento? Qualquer receptor que inclua essa faixa poderá captar algumas emissoras se as condições forem boas. Há alguns anos captei várias latinoamericanas com um receptor portátil de três faixas que me custou menos de US$ 30. Mas o Dexismo sério pede um receptor melhor. O mínimo é um bom equipamento como o Sony ICF-2010 ou o Sangean ATS-909 a um modelo de mesa como o Drake R-8 ou o AOR AR-7030. Os pontos chave para escolha de um receptor são sensibilidade e seletividade. Ele deve ser sensível o suficiente para tornar legível o áudio de sinais que às vezes são muito fracos. Seletividade – a capacidade de rejeitar sinais próximos ou QRM – é igualmente importante. Assim como nas bandas internacionais, as tropicais também podem apresentar congestionamento. Nas faixas internacionais a interferência está, na maior parte das vezes, a 5 kHz de distância, mas algumas emissoras em ondas tropicais apresentam desvios de frequência, então o QRM pode estar a apenas dois ou três kilohertz de distância. E, além do QRM de outras emissoras de radiodifusão, algumas estações utilitárias em modos como  RTTY, CW, FAX, etc também usam parte das ondas tropicais.

A boa seletividade é apenas a primeira ferramenta que o Dexista pode usar para eliminar a interferência. Muitos fazem Dexismo nas ondas tropicais em SSB, ainda que os sinais sejam em AM. A razão é simples: se você estiver ouvindo em banda lateral superior (USB), é possível ouvir apenas o que está acima, não abaixo da frequência sintonizada, o que elimina ou ao menos reduz o QRM de uma frequência inferior. Use a banda lateral inferior (LSB) para reduzir o QRM de uma frequência superior. Mas, com o SSB você deverá sintonizar a emissora com precisão. Se estiver fora até mesmo algumas centenas de Hertz, o sinal ficará distorcido e haverá a presença de um apito no áudio. Esse tipo de sintonia requer prática, mas vale à pena. Tente-a primeiramente com sinais mais fortes para adquirir a prática necessária para lidar com os mais fracos. Outras dicas incluem o uso do controle de tonalidade, filtros notch, detecção síncrona e PBT, caso seu receptor possua tais recursos. Funções que normalmente não são necessárias quando da escuta de emissoras internacionais ajudam muito nas ondas tropicais.

Evidentemente um receptor não é melhor que a antena conectada a ele. Uma antena de fio no lado de fora da casa já é de grande valia. Antenas Beverage com centenas de metros de fio esticados em linha reta a 2,4 metros acima do solo são o verdadeiro paraíso, mas para a maioria são possíveis de usar apenas em DXpeditions. Antenas ativas e loops internas também podem render bem se estiverem em um ambiente com baixo ruído – eu mesmo ainda obtenho bons resultados com uma antena loop de ferrite com vinte anos de uso e que se adapta facilmente a minha mesa.

Informações detalhadas sobre a compra de receptores e antenas específicas estão além do escopo deste artigo. Para maiores informações é recomendável uma pesquisa na internet, em avaliações publicadas na revista Monitoring Times, no WRTH ou em edições do extinto Passport to World Band Radio. Há vários livros interessantes sobre antenas no mercado; Eu gosto dos publicados por Ed Noll e Joe Carr. Mesmo assim lembre-se que gastar US$ 1000 na aquisição de um receptor de comunicações não fará você um bom Dexista de ondas tropicais. Um Dexista experiente com um ICF- 2010 certamente superará um novato com um R-8B.

Como
tornar-se um bom Dexista de ondas tropicais? Aprenda o comportamento das faixas. Essa é a razão pela qual um Dexista experiente com o mínimo de equipamentos superará um novato com melhor arsenal. O Dexista experiente conhece o que é comum é o que não é. Ao sintonizar as faixas ele parará por alguns segundos em cada emissora sintonizada. Baseado na frequência, idioma, programação, qualidade do sinal e horário ele saberá quais são quase todas as emissoras – as comuns. Se algo estiver diferente, ele deter-se-à. Talvez seja uma emissora nova ou rara em uma frequência vaga. Talvez uma transmissão em Espanhol revele uma emissora com música guatemalteca em uma frequência ocupada por uma brasileira. Talvez uma estação africana que normalmente chega com sinal fraco apresente sinais muito melhores, indicando condições boas para aquela região e a oportunidade de captar outras menos comuns.

Não há mágica para o sucesso no Dexismo em ondas tropicais. Quanto mais tempo de hobby, maior a experiência e melhor o Dexista será. Gradualmente o Dexista aprenderá a reconhecer os idiomas das emissoras mais interessantes, como Espanhol, Português, Indonésio, Russo e Francês. Então, aprenderá as frases típicas usadas nas identificações, sinais horários e outros anúncios importantes. Reconhecer gêneros musicais também é essencial. Poucas emissoras fora da Indonésia tocam música de gamelão. Para o novato, ritmos africanos e latinoamericanos podem soar como a mesma coisa, assim como música chinesa e andina. Sim, cada uma possui suas particularidades. Com experiência o Dexista aprenderá a reconhecer os diferentes tipos de músicas africanas e até mesmo a diferença entre os huaños peruanos do norte e sul do Peru.

Também é importante algum conhecimento sobre a região de interesse do Dexista. Nomes de países, cidades, rios e outros aspectos geográficos podem ajudar. Alguns Dexistas sabem de cabeça os nomes de muitos dos estados e departamentos do Peru, Bolívia e Brasil. Outras informações importantes incluem o nome da moeda, do Presidente, de líderes de destaque e produtos populares (cervejas e bancos são dois dos produtos mais anunciados por emissoras latinoamericanas). O nome de uma empresa pode ajudar a definir qual país está sendo ouvido. Tudo isso é aprendido ao longo do tempo.

Uma parte do caminho será trilhada em frente ao rádio. A outra será usando referências. A leitura regular de boletins Dexistas e websites do gênero é altamente recomendada, assim como um bom atlas. O empréstimo de livros e vídeos sobre uma região de interesse não será apenas interessante como ajudará a ter bagagem sobre o assunto. CDs de música regional também são interessantes, bem como a busca de clipes de áudio na Internet.

Então, que tal preparar-se para as excelentes recordações de ótimas captações, QSLs favoritos e seções de escutas pela madrugada? E, talvez até mesmo a escuta de música calypso!

Artigo disponibilizado no site do Dexista Don Moore e traduzido mediante autorização. A publicação em qualquer outro meio é expressamente proibida.

Anúncios

Ações

Information

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: