Radio La Voz del Napo

24 08 2013

Massimo Cerveglieri

Um homem entre a santidade e o espírito de Indiana Jones: a história do Padre Humberto Dorigatti e sua emissora na selva equatoriana.

À noite, em meu rádio
Na noite de 6 de maio de 2003, quando captei uma emissora a partir do coração da Amazônia equatoriana fiquei surpreso com a escuta, mas não sabia quem tinha respondido meu informe de recepção posteriormente.

A emissora era a “La Voz del Napo”, transmitindo em 3279,5 kHz a partir de Tena, uma cidade pequena com cerca de mil e quinhentos habitantes, no centro da província de Napo, a 110 km sudeste de Quito, capital do Equador. Se você olhar o mapa acima, talvez não ache essa cidade imediatamente, mas para ajudá-lo ela está entre as letras “A” e “D” de “Ecuador”, logo após os Andes e já na direção da floresta Amazônica. Após a escuta, enviei um informe de recepção como em tantas vezes, reagindo de forma automática. Desta vez, após algumas semanas recebi uma carta em perfeito Italiano assinada pelo “Padre Umberto Dorigatti”, que estava surpreso pelo fato da sua emissora, que é destinada à população indígena, ser captada à tamanha distância.

2Gênova, Itália, 1947: a partida do Padre Dorigatti em um navio com emigrantes e missionários.

O Padre Dorigatti informou que é natural do norte da Itália, mas deixou seu país em 1946 para participar de uma missão no Equador; disse também que estava retornando a terra natal para comemorar seu 50º ano como Padre no Lago Garda, onde ele ainda tinha um irmão e outros amigos.

A primeira missa do Padre Dorigatti, em 8 de dezembro de 1954.

Ao chegar na Itália, tive uma conversa telefônica muito interessante com ele, e antes do seu retorno ao Equador recebi um livro impresso especialmente para esta ocasião pela comunidade local contendo detalhes da vida intensa do Padre Dorigatti. Esse livro me impressionou tanto que não seria possível definir o Padre Dorigatti como nada diferente de um homem entre a santidade e o heroi de um filme de ação.

Este é o Padre Dorigattti: a vida real de um Padre na floresta Amazônica.

Em agosto de 1946 o Padre Dorigatti deixou Riva del Garda com destino ao Equador, cruzando primeiramente o Oceano Atlântico em direção ao  Brasil e passou por Uruguai, Argentina, Chile e em 30 de março de 1947 chegou a Guayaquil, durante uma viagem digna de um verdadeiro Indiana Jones pela América do Sul. Infelizmente não posso detalhar todas as aventuras deste homem pois o livro tem cinquenta páginas repletas delas. Quando finalmente chegou em Tena, havia perdido vários dentes por conta da falta de um especialista para tratá-lo, tinha os pés infestados de vermes e várias amebas e parasitas infectaram seu corpo. Ele teve de caminhar pela floresta tropical sem sapatos (por terem sido gastos!), mesmo com vermes nos pés e sobre pedras que pioraram ainda mais a situação. Entretanto, ele não pensou nisso pois a primeira coisa que aprendeu foi a viver como um indígena, a caçar na floresta, falar em idioma Quechua e a navegar em uma canoa pelo Rio Napo. Provavelmente esta foi a chave que permitiu ao Padre Dorigatti permanecer vivo: ele acreditava que se os indígenas estavam lá há milhares de anos vivendo como ele, seria possível sobreviver. O livro possui outras histórias, como a de um “Eldorado”, quando o ouro foi descoberto no rio Napo, com histórias de escravos e, não menos importante, a construção da catedral, escolas e a emissora de rádio. Eis um incrível roteiro para um filme de aventura! Como a realidade é sempre melhor que que a imaginação, o Padre Dorigatti teve de presenciar até mesmo uma guerra, no Peru, em 1996, não declarada, mas que existiu. A rádio “La voz del Napo” é muito pobre e sobrevive com a ajuda de voluntários, não possui secretárias, e neste momento Padre Dorigatti me escreveu para dizer que está procurando um diretor para administrar a emissora e seus programas. Ele já tem 77 anos e não pode mais fazer de tudo.

Tena, agosto de 2004. Uma vista frontal da emissora “La voz del Napo” com o Padre Dorigattti e dois colaboradores da programação em idioma Quechua.

A emissora é voltada à população indígena que vive na região amazônica e que fala o idioma Quechua. Todas as manhãs e finais de tarde há um programa com duas horas de duração dirigido a eles. Em suas cartas, Padre Dorigatti não especificou os horários de tais programas, mas acho que não devem ser estritamente definidos. Após o noticiário a emissora retransmite conteúdo da “Rádio Maria”.

Entrada da “La Voz del Napo”, com o Padre Dorigattti, Dario e Wilber, dois locutores da programação em Quechua.

Para encerrar, gostaria de pedir a você que envie às crianças da missão e às escolas do país tudo que possa ser útil a elas; eu o fiz e continuo a fazer isso desde que comecei a receber cartas do Padre Dorigatti, colocando em meus pacotes sempre várias canetas, lápis, etc e posso afirmar que eles sempre chegaram sem nenhum problema. Pense em uma dessa crianças dizendo: “Recebi um presente, o primeiro em minha vida, de um homem de um país estranho chamado… E nunca o esquecerei.”

Se você quiser manter contato comigo, seguem os dados da missão: P. Humberto Dorigatti, Mision Josefina, Tena (NAPO), Equador.

Artigo traduzido mediante autorização do Danish Shortwave Club International. A publicação em qualquer outro meio é expressamente proibida.

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