A avó das emissoras clandestinas da América Central

9 02 2013

Don Moore

Uma versão levemente editada deste artigo foi originalmente publicada na edição de abril de 1989 da revista Monitoring Times.

Para os Dexistas, os anos 80 foi a era das emissoras clandestinas centroamericanas: Radio Venceremos, Radio Quince de Septiembre, Radio Farabundo Marti, Radio Liberación… a lista parece não ter fim. A situação política era realmente conturbada e muitas emissoras permaneciam no ar meses a fio. Era comum após o cumprimento da “missão” ela deixar o ar. Muitas tem como modelo a primeira emissora clandestina com fins políticos da região. Em 1954 ela foi ao ar, ajudou a derrubar um governo e desapareceu dois meses depois. Sua história não é muito bem conhecida, mas talvez à noite, nas regiões montanhosas e selvas da América Central, os locutores das rádios Venceremos e Quince de Septiembre sentaram junto ao fogo para falar da La Voz de la Liberación.

A Guatemala, nação mais importante e populosa da região possui uma história infeliz de ditaduras sanguinárias. Em 1931 o país foi tomado pelo governo do General Jorge Ubico. Um dos passatempos favoritos de Ubico era pilotar uma motocicleta pelo país com uma metralhadora nas costas. Ele representava o estereótipo dos ditadores das “repúblicas das bananas”: qualquer um que cruzasse seu caminho ou violasse a menor das suas leis poderia ser fuzilado. Milhares tiveram esse destino. Mesmo assim Ubico tinha qualidades: um dos seus hobbies era a escuta de ondas curtas e ele preferia tal meio para enviar mensagens aos oficiais em todo o país ao invés do telefone.

Obviamente foi o governo violento e não o gosto por ondas curtas que levou à sua queda em 1944. Após grandes protestos de estudantes e professores, Ubico foi obrigado a recuar e entregar o governo a vários oficiais de esquerda do exército comandados pelo Coronel Jacabo Arbenz. Em 1945, eleições foram realizadas e o controle do país foi para as mãos de um governo civil. Nas eleições seguintes, em 1950, Arbenz, com apenas 37 anos de idade concorreu e venceu a disputa à presidência. Seu papel no golpe de 1944 não seria esquecido.

Na década de 1950 a maior parte dos países da América Latina eram controlados por ditaduras militares de direita. Muitos políticos civis não tinham permissão para viver livremente em seus países. Um dos primeiros atos de Arbenz foi abrir a Guatemala aos exilados políticos de toda a América Latina. Entretanto, não somente políticos liberais foram aceitos, mas havia também centenas de comunistas e revolucionários. Arbenz dizia crer que todos os homens tinham o direito de viver livremente, independente de suas convicções, mas nem todos acreditavam nele.

Enquanto isso, no congresso guatemalteco Arbenz tinha o apoio de uma coalizão de cinquenta e um membros que incluía quatro representantes do Partido Comunista. Como parte da coalizão, aos comunistas foram dados vários postos menores no governo, principalmente no Ministério da Agricultura. Com o Macartismo em alta nos Estados Unidos, Washington passou a observar atentamente a situação na Guatemala.

Tomando a empresa de frutas
Arbenz fez algo que nenhum presidente guatemalteco realizou até então; ele decidiu assumir o controle da United Fruit Company. A referida empresa era a maior investidora no país e tinha tanto poder que poucos teriam coragem de enfrentá-la. A United Fruit era detentora de muito mais que plantações de banana. O único meio de transporte entre o interior do país e a costa caribenha era a linha férrea da United Fruit entre a Cidade da Guatemala e Puerto Barrios. A ferrovia cobrava as taxas mais altas do mundo. A United Fruit também era dona do único porto do país. Arbenz irritou a United Fruit quando anunciou que daria fim ao monopólio da empresa com a construção de uma estrada paralela à ferrovia e construindo um novo porto. Em outra situação ele forçou a empresa a pagar indenização à centenas de trabalhadores despedidos.

Os desentendimentos de Arbenz com a United Fruit não pararam por aí. Uma das prioridades do seu governo era dar terra para centenas de milhares de camponeses. Não havia dúvida sobre de onde essa terra viria: o maior proprietário de terras do país era a United Fruit Company. Ela mantinha o controle de mais de meio milhão de acres, 85% dos quais improdutivos. No meio de 1952 Arbenz decretou que todas as terras não cultivadas do país estavam sujeitas ao confisco governamental, de forma que pudessem ser repassadas aos camponeses. Arbenz planejava pagar pelas terras. Mostrando ter senso de humor ele ofereceu pagar à United Fruit exatamente o que a empresa dizia que a terra valia – conforme o valor declarado em seus relatórios de impostos. Arbenz sabia muito bem que a empresa sonegou impostos por anos, declarando um valor correspondente às suas terras de apenas quatro por cento do real. Isso enfureceu a United Fruit.

Os EUA entram na briga
A United Fruit Company tinha seus contatos em Washington. John Foster Dulles era Secretário de Estado, e seu irmão, Allen Dulles, era chefe da CIA. A família Dulles tinha vários contratos comerciais com a United Fruit Company, então os irmãos estavam apreensivos com o que estava ocorrendo na Guatemala. O Secretário de Estado Assistente para Assuntos Interamericanos, John Moors Cabot, era acionista da United Fruit. Os olhos passaram a se voltar cada vez mais para a Guatemala. Em Agosto de 1953 a decisão foi tomada: Arbenz deveria deixar o poder. Allen Dulles trouxe alguns dos seus melhores especialistas em ações secretas. A “Operation Success” (Operação Sucesso) começou.

A CIA tinha um grande trabalho pela frente; poucos guatemaltecos estavam interessados na derrubada de Arbenz. Devido ao seu programa de reforma agrária e suporte à cooperativas os camponeses e trabalhadores em geral apoiavam seu governo. A classe média, que não tinha ganho ou perdido nada sob seu governo estava no mínimo em posição de tolerância ao presidente até as eleições de 1955. Após o golpe de 1944 o exército teve seus oficiais conservadores afastados, então os que foram mantidos ou apoiavam Arbenz ou eram neutros. Os guatemaltecos que se opunham ao governo eram geralmente livres para fazer isso por conta do regime político estabelecido. Eles não viam razão para violência.

Considerando todos esses fatores não seria um absurdo se “Operation Success” fosse chamada de “Operation Failure” (Operação Falha). Mas a CIA tinha uma grande bagagem de truques e dela tirou uma ferramenta de propaganda da II Guerra Mundial chamada de “The Big Lie” (A Grande Mentira). O rádio teria um papel importante nesta batalha.

A chave do plano era a guerra psicológica. O povo guatemalteco tinha de ser convencido que Arbenz não controlava mais o país. O plano seria executado por meio de transmissões de rádio clandestinas e propaganda em panfletos lançados a partir de aviões. Enquanto isso, uma pequena força militar seria criada para invadir a Guatemala a partir de um país vizinho. A propaganda seria usada para convencer o país de que essa invasão foi efetuada por uma pequena parte de uma força muito maior de exilados guatemaltecos opositores a Arbenz. Outros truques sujos seriam usados para confundir e reduzir o moral da população.

Não era segredo que o governo norteamericano estava insatisfeito com Arbenz. A Agência de Informações dos Estados Unidos plantou mais de duzentos artigos anti-Arbenz na imprensa latinoamericana durante esse período. Mas a Operation Success tinha que ser realizada dissimuladamente, sem qualquer conexão aparente com o governo dos Estados Unidos. Não apenas tal conexão seria politicamente embaraçosa como a população local poderia ter ideia do que estava acontecendo e não assimilar a propaganda. A operação tinha fe ser baseada fora dos Estados Unidos, e da forma mais discreta possível.

No início de 1954 a Operation Succes estava em curso. O ditador da Nicarágua Anastasio Somoza, um convicto inimigo de Arbenz, concordou em deixar que seu país fosse usado como base de treinamento. O coronel guatemalteco Carlos Castillo Armas era o líder do “Exército de Libertação”. Castillo Armas foi exilado após organizar um golpe militar infrutífero em 1950. Desde então ele vivia como vendedor de móveis em Tegucigalpa, Honduras. Seu “exército” consistia de cerca de cento e cinquenta homens, uma mistura de guatemaltecos opositores a Arbenz, hondurenhos, nicaraguenses e caçadores de fortuna norteamericanos em busca de aventura e dinheiro. Pilotos norteamericanos e chineses foram recrutados para a força aérea rebelde.

La Voz de la Liberación
Antes que qualquer invasão ocorresse o país tinha de ser “preparado”. Então, era importante que a estação de rádio rebelde fosse levada ao ar o mais rápido possível. Os técnicos da CIA instalaram uma estação de rádio completa em uma fazenda em local remoto na Nicarágua. Transmissores adicionais foram instalados em Honduras, República Dominicana e até mesmo na embaixada dos EUA na Cidade da Guatemala. Ainda que nunca usado, outro transmissor foi instalado na Ilha Swan (que sete anos antes teria sido a base da famosa emissora clandestina anti-castrista Rádio Swan).

O especialista em ações secretas E. Howard Hunt (conhecido por sua participação no escândalo Watergate) foi colocado no comando da campanha de propaganda. David Atlee Philips foi nomeado seu representante e chefe da emissora. Para a locução, cinco homens e duas mulheres (nascidos na Guatemala) foram recrutados. Os guatemaltecos foram liderados pelos locutores Mario Lopez Otero e José “Pepe” Toron Barrios.

No início de Abril de 1954 o grupo foi levado à Flórida para treinamento técnico na base militar de Opa Locka. Para manter os apresentadores felizes, as namoradas dos apresentadores foram levadas para uma visita de fim de semana. O fim do treinamento foi celebrado com uma noite em Miami, cortesia de Howard Hunt. Na metade do mês de Abril eles voltaram à Manágua, e após alguns dias às instalações da emissora, composta por um estábulo com os transmissores, estúdio e um alojamento. Eles tiveram duas semanas para terminar de instalar a emissora e começar a gravar os programas – dois meses de trabalho duro os aguardavam.

Os programas foram produzidos de forma a apelar para o patriotismo e valores base da sociedade. O slogan “Trabajo, pan y libertad”, ou “Trabalho, pão e liberdade” foi adotado. Para apelar a todos os setores da sociedade, programas especiais foram produzidos para mulheres, jovens, trabalhadores, soldados, oficiais do exército e a elite. Os últimos dois grupos eram especialmente importantes. Sem a certeza de que eles agiriam de forma neutra ou que não existiria sua interferência a invasão estaria fadada ao fracasso.

Anunciando a emissora clandestina
O primeiro dia de transmissão foi agendado para 1 de Maio, Dia Internacional do Trabalho. Com toda a nação em folga haveria uma grandiosa audiência em potencial – se a população soubesse da existência da emissora. Fazer com que a audiência em potencial tome ciência de que a estação está no ar é um problema para qualquer emissora clandestina. Além disso, uma emissora do gênero não pode fazer anúncios em jornais locais. Pensando bem, creio que isso é possível, pois Mario e Pepe o fizeram para a La Voz de la Liberación!

Poucos dias antes da transmissão, anúncios de meia página apareceram em cada jornal diário da Guatemala. Eram de uma emissão especial alusiva ao feriado a partir do México em ondas curtas. O programa incluiria a participação de cantores mexicanos, uma famosa atriz e o conhecido comediante Cantinflas. Obviamente o horário e frequência foi informado.

Ao sintonizar a emissora os ouvintes se deram conta que o programa não era exatamente o que tinha sido anunciado. As estrelas estavam lá, mas em gravações. Mario e Pepe pediram desculpas e explicaram que a mentira foi a única forma de fazer com que o público tomasse conhecimento da transmissão inaugural. Os ouvintes não se importaram; intriga política pode ser muito mais interessante que cantores mexicanos. No programa não apenas houve acusações contra o presidente como também foi informado que ele seria derrubado em breve pelos rebeldes.

Após tal transmissão, naturalmente poucas pessoas levaram a sério a La Voz de la Liberación. No dia seguinte Arbenz fez um discurso pela Radio Nacional (TGW) denunciando a emissora. As dúvidas que a população tinham com relação à seriedade dos rebeldes foram desfeitas quando os jammers da CIA foram ligados e tornaram impossível a escuta do discurso do presidente. No dia seguinte, a La Voz de la Liberación tinha uma audiência regular. Até mesmo Arbenz a sintonizava diariamente!

O papel da La Voz de la Liberación era claro. Primeiramente a emissora buscava mobilizar os opositores de Arbenz. Depois, persuadir os que eram neutros de que a oposição a Arbenz não seria uma má ideia se quisessem estar do lado vencedor. Quando uma revolução está no ar, todos querem estar com o vencedor. Para encerrar, a emissora tinha de persuadir os apoiadores de Arbenz de que tudo estava perdido e não havia razão em continuar a lutar.

Para levar seu plano a cabo a La Voz de la Liberación tinha de convencer o povo do país que Arbenz não conseguia controlar efetivamente o país. Uma das formas que a emissora buscou para dizer isso (também para ocultar sua real localidade) era anunciar que transmitiam a partir de montanhas fora da Cidade da Guatemala. Mario e Pepe diziam aos ouvintes: “se o exército de Arbenz não consegue encontrar e fechar uma pequena emissora de rádio clandestina, como poderia deter Castillo Armas quando invadisse o país?”

Para tornar mais factível a informação, uma das transmissões foi interrompida por gritos e barulhos de tiros. Os locutores gritaram “Eles nos encontraram” e deixaram o estúdio assim que soldados também gritando diziam “Mãos ao alto!” Naturalmente o exército da Guatemala nem estava por perto, pois a emissora estava na Nicarágua. A mentira funcionou tão bem que os oficiais guatemaltecos que monitoravam a La Voz de la Liberación acreditaram nela. Posteriormente a estação governamental TGW anunciou que o exército havia encontrado e fechado a emissora. Agora não havia mais dúvida, tanto aos olhos da população quanto da imprensa estrangeira que ela realmente transmitia a partir das montanhas, afinal de contas foi o que a própria estação do governo disse.

No dia seguinte a emissora retornou ao ar. Mario e Pepe agradeceram ao amadorismo dos soldados de Arbenz e a bravura dos soldados rebeldes que guardavam a emissora. Informaram que fugiram por pouco da armadilha. Agora ela estava transmitindo a partir de uma localidade nova e mais segura. Entretanto, devido ao perigo iminente de serem novamente pegos as locutoras não trabalhariam mais na emissora.

E a emissora “derruba” a Força Aérea
Ainda que o apoio aéreo seja primordial para a maior parte das operações militares, a CIA podia fornecer apenas alguns poucos bombardeiros obsoletos para o “Exército de Libertação”. Para eles, ter algo mais moderno seria o mesmo que colocar um cartaz “Made in the USA” na invasão. Tais aviões não teriam condições de confrontar a moderna Força Aérea da Guatemala. Ela era o principal obstáculo para uma invasão bem sucedida, uma vez que tinha o controle do espaço aéreo do país. Os aviões do governo não apenas seriam capazes de bombardear os rebeldes mas, principalmente, ao sobrevoá-los poderiam informar quão insignificante a invasão realmente era. Se aviões modernos não podiam ser enviados para confrontar a Força Aérea guatemalteca, outra coisa tinha que ser feita. Essa outra coisa era a La Voz de la Liberación.

A emissora passou a irradiar programas elogiando e falando sobre os corajosos pilotos soviéticos que desertaram voando para o oeste. Nenhum pedido direto foi feito aos pilotos guatemaltecos, mas a ação funcionou. Em 5 de Junho o Coronel Rodolfo Mendoza Azurdia desertou, voando para a região de fronteira com a Nicarágua.

Logo depois Mendoza foi levado à estação para uma visita. Pediram a ele para fazer uma transmissão especial e aconselhar aos demais pilotos a desertar. Sem querer causar maiores problemas a sua família (que ainda estava na Guatemala), ele recusou. Mario e Pepe concordaram e convidaram-no para um jantar com direito a um whisky.

Mario e Pepe certificaram-SE de que Mendoza bebeu além da sua quota de whisky. Rapidamente o piloto ficou bêbado. Elogiando sua bravura, os dois locutores disseram que era uma pena ele não poder fazer um discurso na emissora. Mas, se ele o fizesse, o quê e como diria? Com a persuasão da garrafa para auxiliá-lo, o aviador embriagado começou a falar de forma inflamada, criticando Arbenz e aos seus companheiros e por qual razão desertar. Cada vez que ele começava a vacilar e perder interesse no assunto Mario e Pepe faziam mais perguntas de forma a alimentar o discurso nos mesmo nível. Quando a bebida o dominou ele simplesmente adormeceu no chão. Mario e Pepe foram então a um sofá e retiraram um gravador que tinham escondido embaixo das almofadas. De volta ao estúdio, pouco trabalho foi necessário para retirar as perguntas e editar os comentários de forma que parecessem efetuados ao vivo para transmissão no dia seguinte. Funcionou perfeitamente.  Arbenz estava convencido de que se tivessem a chance, mais pilotos desertariam. Ele ordenou que a Força Aérea permanecesse em terra e que nenhuma unidade poderia decolar durante a crise.

E a batalha aérea começa
Agora que os ceus estavam a salvo, a força aérea de Castillo Armas poderia fazer seu trabalho. De Tegucigalpa, Honduras, aviões de carga decolavam regularmente para lançar panfletos de propaganda sobre a capital e principais cidades. A La Voz de la Liberación continuou seu papel na guerra, a cada noite levando ao ar anúncios com instruções para que aviões lançassem suprimentos aos rebeldes inexistentes nas montanhas. Foram feitos pedidos aos ouvintes para ajudar os rebeldes localizando potenciais pontos de descarga. Lançamentos ocasionais foram feitos de forma que o povo localizasse os suprimentos e informasse ao governo. Isso criou ainda mais incerteza quanto à capacidade de Arbenz controlar as fronteiras do país.

A tensão aumentou quando Arbenz decretou o corte noturno da energia elétrica na Cidade da Guatemala. A razão oficial era prevenir que os rebeldes bombardeassem a cidade. Algumas pessoas achavam que Arbenz estava tentando tornar mais difícil a escuta da La Voz de La Liberación. Se esta fosse a razão, certamente não era um plano bem pensado, uma vez que muitas pessoas tinham tanto rádios à pilha.

Independente dos objetivos de Arbenz, Mario e Pepe encontraram maneiras de usar o corte de energia em seu proveito. Foi solicitado aos ouvintes que acendessem velas em seus quintais para ajudar a força aérea rebelde a localizar a Cidade da Guatemala durante a noite. Explicaram que isso era necessário para que os pilotos pudessem se orientar para a descarga de suprimentos nas montanhas. Muitos ouvintes acreditaram nisso e milhares de velas foram colocadas nos quintais.

No dia seguinte o governo de Arbenz anunciou que o uso de velas estava proibido. Mario e Pepe tinham uma carta na manga. Na noite seguinte eles estavam no ar e agradeceram aos ouvintes pela ajuda aos rebeldes acendendo velas. Isso tornaria o trabalho dos pilotos mais fácil, segundo eles, quando os rebeldes decidissem bombardear as bases militares. Uma vez que seus apoiadores estavam em todos os lugares, as bases militares eram os únicos lugares sem velas. Tudo que os pilotos teriam de fazer seria buscar por áreas escuras e bombardeá-las. Na noite seguinte velas foram acesas em toda a cidade – incluindo quarteis do exército!

Cuidando do Exército
Mesmo com a Força Aérea em terra, o pequeno grupo rebelde não teria condições de enfrentar os seis mil homens do exército da Guatemala. Algo tinha de ser feito para garantir que uma batalha real não ocorresse. Os agentes da CIA então tomaram conhecimento de que Arbenz estava considerando a possibilidade de armar os camponeses e cooperativas que o apoiavam. Ele não confiava totalmente em seu exército e não tinha certeza quanto a real dimensão do grupo de rebeldes. Tropas extras poderiam ser úteis.

Entretanto, o que parecia ser uma boa ideia tornou-se um desastre quando foi descoberta por Howard Hunt e David Atlee Philips. A força aérea rebelde foi convocada para lançar panfletos sobre a Cidade da Guatemala e outras cidades grandes dizendo que isso era um insulto ao exército e também o primeiro passo de um plano do presidente para destruí-lo e substituí-lo por uma milícia civil. Temendo pelo futuro, os oficiais do exército começaram a desconfiar do que Arbenz planejava. Ele manteria o exército nos quarteis até que tudo terminasse.

A invasão
Em 18 de Junho de 1954, Castillo Armas e seu exército cruzaram a fronteira entre Honduras e a Guatemala. Ele comandou a invasão dirigindo um veículo antigo tipo “station wagon” enquanto seus cento e cinquenta soldados vieram logo depois em caminhões para transporte de gado. Dirigiram alguns quilômetros até a cidade fronteiriça de Esquilpulas e então levantaram acampamento. Não houve resistência. Naquela noite a La Voz de la Liberación anunciou que o exército de Castillo Armas cruzou a fronteira e capturou Esquilpulas após uma batalha feroz. Mario e Pepe disseram que a partir da sua localização, próxima à Cidade da Guatemala,  eles não podiam confirmar o rumor que Castillo Armas tinha cinco mil homens.

A CIA começou a lançar bombardeios ocasionais e ataques aéreos com armas automáticas a partir de Puerto Cabezas, Nicarágua. Bombas foram lançadas em bases militares de todo o país e no porto de Puerto Barrios, mas nenhum na capital. Às vezes, devido à falta de bombas, os pilotos lançavam garrafas vazias de refrigerante. O barulho que faziam com o impacto no solo soava como o de uma bomba. Os guatemaltecos passaram a se referir as bombas como “sulfatos” (laxantes) devido ao efeito que possivelmente tinham sobre os oficiais do governo. Certamente eles tinham esse efeito sobre qualquer um que estivesse por perto!

A guerra estava paralisada. Castillo Armas e seus homens acamparam em Esquilpulas: eles eram muito poucos para continuar a invasão e, por ora, seu trabalho estava feito. Enquanto isso, o governo Arbenz estava confuso. Não havia comunicação confiável com a região de fronteira e o presidente recusava deixar que o exército fosse combater os rebeldes. Às vezes parecia que as únicas notícias reais que o governo podia obter eram da emissora clandestina – e nenhuma era boa.

Mario e Pepe continuaram a agir. Um dos seus passatempos favoritos era usar de desinformação ou espalhar rumores como ao anunciar que a água do Lago Atitlán estava envenenada. Outras vezes foram ao ar em uma frequência próxima da emissora do governo (TGW) para imitá-la ou fazer falsos anúncios para confundir os ouvintes. A La Voz de la Liberación também transmitia mensagens para campos rebeldes falsos e relatórios de batalhas sangrentas que nunca aconteceram.

Durante várias semanas a CIA monitorou e anotou as frequências usadas pelo exército da Guatemala. Posteriormente usaram esse conhecimento para transmitir comandos e informes falsos para confundir o exército e o governo. Até mesmo a embaixada norteamericana ajudou a espalhar rumores como quando seus funcionários ligavam para amigos guatemaltecos para fazer perguntas do tipo “É verdade que Zacapa (um dos 22 departamentos da Guatemala – N.T.) caiu nas mãos dos rebeldes?” E assim o cerco continuou…

A batalha final
E a situação ficou séria. Na sexta-feira, 25 de junho, bombas foram lançadas na base do exército fora da Cidade da Guatemala pela primeira vez. O ruído e a fumaça convenceram os habitantes da região que o fim estava próximo. Milhares começaram a fugir, bloqueando todas as rodovias. Na manhã de segunda-feira, 27 de Junho, a La Voz de la Liberación estava no ar, anunciando que duas grandes colunas de rebeldes se aproximavam da Cidade da Guatemala. Foram transmitas solicitações aos refugiados para que saíssem das estradas e deixassem que os caminhões dos rebeldes passarem. Mario e Pepe passaram o dia todo transmitindo notícias dos movimentos de tropas compostas por centenas de soldados rebeldes fictícios. A Cidade da Guatemala estava totalmente em pânico. Enquanto isso, Castillo Armas e seus cento e cinquenta rebeldes estavam relaxando em Esquilpulas. Sua única chance de sucesso era se a propaganda da La Voz de la Liberación dos últimos dois meses funcionasse.

No sábado à noite, às 21:15, Arbenz foi à Radio Nacional para fazer um pronunciamento. Certamente mais guatemaltecos estavam ouvindo a La Voz de La Liberación que a TGW e os que ouviam a emissora estatal sofriam com a presença do jamming. Arbenz resumiu a situação em que o país estava e culpou os Estados Unidos por apoiar os rebeldes que invadiram o país. Então, disse ter chegado à conclusão de que a única forma de restaurar a paz no país era renunciando ao seu cargo. Em seguida iria para o exílio no México e deixaria o governo nas mãos do seu amigo e chefe de gabinete do exército, Coronel Carlos Enrique Díaz.

Nos dias seguintes a agitação se manteve na Cidade da Guatemala. Díaz e outros oficiais formaram e dissolveram juntas diariamente, tentando encontrar uma que agradasse ao embaixador dos Estados Unidos e fosse reconhecida por tal país. A única solução seria dar a Castillo Armas um cargo no governo. Ele e sua tropa voaram para a capital. Após ver o quão insignificante o exército rebelde era e vendo como seria fácil derrotá-lo, Díaz foi para casa e chorou por vários dias. Com alguns poucos dias a mais de manobras políticas guiadas pelo embaixador dos Estados Unidos, Castillo Armas passaria a ser o presidente da Guatemala.

A guerra estava terminada. A La Voz de la Liberación venceu. E foi muito mais fácil que qualquer um poderia acreditar. David Atlee Philips, o encarregado da CIA para a emissora clandestina estava ouvindo quando Arbenz fez seu discurso. Philips disse que esperava que o presidente informasse ao povo que a invasão era uma farsa e que tudo estava sob controle. Isso era tudo o que ele tinha a fazer e a invasão seria esmagada. Philips não conseguiu acreditar que Arbenz (e todo o governo da Guatemala) foi tão bem enganado pela propaganda da emissora e ficou chocado com a renúncia dele. Philips era o homem que comandou a emissora que levou a história da Guatemala a tal desfecho.

Epílogo
A missão foi um sucesso e a La Voz de La Liberación teve seus transmissores desligados para sempre. Eles provavelmente foram destinados a outros campos de batalha mundo afora. Para a maior parte das pessoas envolvidas não houve um final feliz.

Arbenz continuou pelos dez anos seguintes viajando pela Europa e América Latina antes de obter residência permanente no México em 1965. Ele morreu em 1970, afogado em sua banheira. Howard Hunt foi elemento de destaque nos Estados Unidos após o escândalo de Watergate. David Atlee Philips permaneceu na CIA até 1974, quando a deixou, criticando suas ações. Desde então passou a escrever livros sobre o assunto. Castillo Armas demonstrou claramente ser um governante corrupto e em 1957 foi assassinado por um dos seus guardacostas. Esse foi o início de uma longa série de governos militares na Guatemala que só terminou em 1986. Mario e Pepe foram vítimas da violência política que começou na década de 1960 e persiste até hoje. Indo para o trabalho em uma manhã, Pepe foi baleado em frente à sua família. Pouco tempo depois, Mario foi metralhado no estacionamento de um supermercado.

Para a CIA e o governo dos Estados Unidos o sucesso na Guatemala veio muito fácil. Sete anos depois, David Atlee Philips foi colocado no comando da Radio Swan para a preparação da invasão da Baía dos Porcos (Cuba). Muitos dos outros agentes que trabalharam na operação na Guatemala também foram convocados. Enquanto na Guatemala houve sucesso, em Cuba o resultado foi um perfeito fracasso.

Há inúmeras teorias sobre o fracasso na invasão da Baía dos Porcos. É provável que uma das razões seja um dos exilados comunistas que viveu na Guatemala em 1954. Um médico argentino conhecido como Che Guevara… Ele viu o que aconteceu, aprendeu e quando tudo terminou foi para o México. Lá ele encontrou e tornou-se amigo de Fidel Castro. Poucos anos depois Castro passou a governar Cuba e Guevara foi o segundo no comando. Quando a Radio Swan foi ao ar, Guevara sabia o que estava acontecendo. Ele esteve em meio a tudo isso antes.

O artigo abaixo tem relação com o conteúdo previamente apresentado.

Bombardeio à TGN
Quando os aviões da CIA executaram incursões de bombardeio na Guatemala seus alvos eram geralmente bases militares mas, às vezes, uma emissora de rádio seria interessante. A CIA decidiu que a Radio Nacional tinha de ser tirada do ar. Com bombas e metralhadoras prontas, um avião decolou para fazer o seu trabalho, mas o que veio depois era digno de um filme de Laurel e Hardy, pois a TGW não foi bombardeada, e sim uma pacífica estação missionária norteamericana, a TGW.

De acordo com o que foi dito pelo piloto e seu copiloto eles perderam a direção, mas imaginaram ter bombardeado a estação correta. O engenheiro-chefe da TGN, Wayne Berger, ouviu outra história. Os equipamentos e transmissores da TGW estavam localizados próximos a uma base militar. Quando os aviões chegaram lá os pilotos viram que as baterias antiaéreas da base militar estavam armadas e prontas. Eles decidiram que bombardear a TGW não era uma boa ideia, então decidiram voltar e atacar a próxima emissora que vissem, o que aconteceu com a TGN. Após voltar à Nicarágua criaram a história da perda de direção.

A evidência de tal ataque foi encontrada anos depois. Wayne Berger começou a trabalhar na TGN em meados da década de 1960. Um dia, enquanto realizava trabalho de manutenção de rotina encontrou uma perfuração de projétil em um dos lados de um transformador sem orifício de saída. Wayne decidiu investigar e então removeu o transformador. Dentro estava o projétil de uma metralhadora .50. A entrar no transformador ela aparentemente ricocheteou por dentro sem danificar um único fio, então continuou funcionando por muitos anos. Quanto ao projétil, Wayne o mantém em sua mesa e conta a história sempre que pode.

Artigo disponibilizado no site do Dexista Don Moore e traduzido mediante autorização. A publicação em qualquer outro meio é expressamente proibida.

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2 responses

10 02 2013
Xracer

Caramba,,, que historia fabulosa e até divertida !

Valeu demais !

11 02 2013
Ivan

Carlos,

Espero poder sempre proporcionar material da mais alta qualidade, afinal esta é a filosofia do blog.

Grato pelo comentário.

73!

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