A História do receptor Eton E1

3 06 2012

Bjarne Mjelde

Há um comercial antigo da TV norueguesa que termina  com a frase: “Você tem que tê-lo. Só tem que tê-lo!”. Como pode perceber, eu simplesmente não pude resistir após opiniões aclamando o seu desempenho em Ondas Médias.

Comprei um modelo recondicionado da Siegler, nos Estados Unidos. Na sequência farei a descrição e avaliação da interface do usuário e as diferentes funções encontradas no Eton E1. Na sequência aprofundarei questões de interesse ao Dexista sério, principalmente quanto a sensibilidade, seletividade e sua capacidade de lidar com sinais fortes.

O display do E1 é bastante largo e possui espaço para todas as informações necessárias, o que inclui um mostrador grande de frequência. A iluminação possui três posições: desligado, médio e brilhante e o contraste pode ser ajustado. Infelizmente a posição brilhante não é como a do Icom IC-746Pro. A leitura pode ser difícil se estiver em determinada posição ou se a fonte de iluminação estiver atrás do rádio.

A sintonia é feita por meio de um knob, botões de avanço/retrocesso ou entrada direta via teclado. O knob usa uma mecanismo “catracado” para o processo mais confortável. Você também pode escolher incrementos de 10, 100 ou 1000 Hz. Os botões de avanço/retrocesso são usados para sintonia em passos pré-selecionados; 5 kHz em Ondas Curtas ou Longas e 9/10 kHz para ondas Médias. As funções são fáceis de usar e aprender. De acordo com as especificações, a estabilidade de frequência é de +/- 10 ppm entre 0 e 50ºC. É recomendável aquecer o receptor por uma hora antes de fazer DX por ECSS. É bastante conhecido o fato de que a maioria dos dos E1s possuem um desvio de 50 Hz ou mais. O alinhamento é fácil, mas não tão necessário.

Os modos e a largura de banda são selecionados a partir de uma sequência de botões. Um deles define as larguras conforme os modos disponíveis. Um para AM/AM-síncrono e o botão SSB para USB ou LSB. Se o AM-S for selecionado, o botão SSB define USB, LSB ou DSB (banda lateral dupla). Não há opções para modos como CW e RTTY. O botão para passband tuning pode ser ligado ou desligado e um controle separado sobre o knob de sintonia ajusta o desvio. Seu valor é mostrado acima desses botões. Tais funções são intuitivas e fáceis de usar.

O AGC é selecionado a partir de um botão com ciclos que vão de rápido (0,3 segundos), lento (3 segundos) e automático (rápido durante a sintonia e lento ao parar em uma frequência). Uso o AGC lento na maior parte do tempo. O intervalo de ataque parece ser bastante razoável.

Áudio: controles de volume, agudos, graves e squelch estão do lado esquerdo. Os controles de graves e agudos não possuem uma atuação longa e ainda que pareçam adequados, não chegaram a me impressionar.

Temporizador e memórias: o E1 passui funções de temporização avançadas que eu não pretendo aprofundar neste artigo. O relógio mostra apenas as horas e minutos. O E1 também possui amplo espaço para memórias, sendo 500 de uso livre e 1200 restritas a 120 países. Elas são fáceis de armazenar, editar e apagar. Nelas são armazenadas a frequência, modo, largura de banda, AGC, PBT e detecção síncrona.

A entrada de antena externa fica no lado esquerdo, com chaves independentes para uso de antena externa ou interna para AM e FM. O E1 não possui antena de ferrite interna, o que causou reclamações entre alguns usuários. Muitos também comentaram sobre a falta de uma alça para transporte. Não vi maiores problemas quanto a este ponto, pois a superfície emborrachada é segura o suficiente para o equipamento.

O manual de 77 páginas é em sua maior parte muito bem escrito. Também possui uma lista de especificações detalhada e um diagrama em blocos. O apêndice possui uma introdução às ondas curtas que poderia ser melhor e que obviamente não foi feita com o E1 em mente. Provavelmente esse material foi pego de algum outro lugar.

Sensibilidade
A primeira coisa que faço quando adquiro um novo receptor é medir sua sensibilidade. Até o momento não encontrei outros dados quanto a isso, com exceção dos informados pela própria Eton (menos que 2,0 uV para todas as faixas em AM, 1000 Hz e 30% de modulação, mas sem largura de banda definida. Seriam 7 kHz?). Então, usando um gerador de sinais e um voltímetro CA iniciei as medições. Fiquei muito surpreso! Desde a parte baixa das ondas longas passando pelas ondas médias a sensibilidade foi de -112 a -115 dBm, com a maior parte do tempo em -114, sendo de fato melhor que 0,5 uV!

Os resultados do gerador de sinais são válidos na vida real? Quase. Comparei o E1 com um 746Pro tendo a australiana 4KZ-1620, que chegava no nível do ruído como referência. O áudio era marginalmente mais claro no 746Pro, mas a margem de diferença foi realmente pequena.

Modos e AM síncrono
Além dos modos AM e SSB (que pode ser usado para ECSS), o E1 é equipado com detector síncrono. O ECSS é bastante conhecido dos Dexistas, então não me aprofundarei no assunto, exceto o fato de que o ECSS do E1 é muito bom, uma vez que o seu alinhamento é muito bom.

O síncrono é mesmo tão importante? Alguns Dexistas consideram o detector síncrono a alma do receptor. A detecção síncrona é normalmente associada com a redução da distorção causada pelo fading seletivo. Isso é verdade, mas não é essencial para tal; você pode usar um filtro de áudio passa-baixa elíptico (ELPAF). A detecção síncrona por banda selecionada pode ser usada também para redução de interferência de forma quase idêntica a ECSS.

A detecção síncrona possui uma desvantagem em comparação com o modo AM: a necessidade de travamento em um sinal. Isso leva algum tempo e geralmente é acompanhado por um mínimo de apitos enquanto o receptor tenta centralizar a banda passante. Além disso, alguns receptores perdem o travamento com mais facilidade que outros.

A detecção síncrona do E1 possui três posições: USB, LSB e DSB (banda lateral dupla). Testei a capacidade de redução de distorção com sinais sob fading em ondas curtas. A redução de distorção normalmente será melhor ao usar as bandas laterais, mas concluí que também é eficiente usando banda lateral dupla. Em ondas médias não há muita diferença nos sinais que testei, mas creio que em situações de sinais por onda terrestre/ionosférica teria obtido os mesmos resultados que em ondas curtas. As comparações foram feitas em AM com AGC lento. A conclusão a qual cheguei é que sua eficiência é maior em ondas curtas.

O travamento é feito de forma relativamente rápida. Ele ocorre em cerca de meio segundo, sem maior prejuízo ao áudio do receptor na maior parte das vezes. Se a portadora estiver longe da frequência sintonizada, será necessária nova sintonia e o travamento ocorrerá de forma mais lenta que o detector SE-3, da Sherwood, e ocorrerão apitos.

Mas, e quanto a situações de DX entre canais ou com interferência de emissoras potentes? O resultado é um misto. Testei especificamente com uma emissora de Ontario em 1250 kHz contra uma europeia potente em 1251 kHz. Chegamos então ao ponto central do problema. O manual diz que o modo AM síncrono travará no sinal mais forte da banda passante. Então, se você selecionar LSB, ajuste o PBT para fugir dos 1251, e mesmo se você conseguir travar em 1250, se 1251 aumentar seu nível de sinal essa será a frequência a ser usada como referência e você ouvirá 1251 ao invés de 1250. O problema obviamente diminuirá a medida que você se afastar do sinal interferente, mas mesmo assim temos um problema. Imagine isso acontecendo ao aguardar uma identificação, dez segundos antes da hora cheia…

Não recomendo o uso do AM síncrono por banda passante para Dexismo sério a menos que esteja certo que o travamento não será perdido e transferido para a emissora interferente. Isso é especialmente verdadeiro se operar vários receptores e precisar deixar o E1 para fazer gravações automáticas. Por outro lado, se ele funcionar de acordo com o que precisa, a qualidade de áudio será bem melhor.

O áudio por ECSS é melhor que imaginei. Há uma leve diferença tonal entre USB e LSB, mas que não chega a incomodar.

Seletividade e redução de ruído
Receptores portáteis geralmente não possuem ferramentas eficientes contra interferências e o E1 não foge muito à regra. Conforme dito antes, a sintonia por ECSS é muito boa, mas pode-se dizer que tal recurso é praticamente obrigatório nos receptores atuais. A detecção síncrona é boa, mas insuficiente para situações de faixa congestionada. Então, o que temos disponível?

Filtros de FI
De acordo com as especificações da Eton, há três larguras de banda disponíveis; 2,3 (às vezes informado como 2,5), 4 e 7 kHz. A de 2,3 aparentemente usa o filtro muRata CFJ455K5 que é montado em uma grande quantidade de receptores. Não sei quais são os demais filtros. Pelo áudio eu diria que o de 4 seria um de 4,5 e o de 7 seria de 8 kHz. Espero que alguém efetue as medições pertinentes. De qualquer forma, a seletividade é bastante razoável. Não há nada de errado com com eles, exceto a minha preferência por valores mais estreitos. Outras pessoas poderão obviamente discordar.

Sintonia por banda passante (PBT)
Algo com o qual não podemos viver sem! A PBT pode ser feita por +/-2 kHz. Por razões mencionadas abaixo, a PBT é mais útil no E1 que em muitos outros receptores.

filtro notch é uma ferramenta essencial para remoção de heteródinos. Infelizmente o E1 não o possui. Trata-se de um ponto muito negativo do receptor. A remoção ou redução de heteródinos pode ser feita com o PBT, mas leva um certo tempo e pode aumentar a interferência de uma fonte diferente.

Também não há noise blanker. Ruído do tipo ignição, como no caso do sistema Loran-C, poderia ser reduzido com tal funcionalidade.

Não há função para redução de ruído. Ainda que existam muitos de qualidade questionável e de fato degradem a qualidade de áudio, em algumas situações são bastante úteis. Obviamente este é o ponto em que receptores de comunicações e portáteis seguem caminhos diferentes.

Recepção em ambientes com sinais fortes
Com uma sensibilidade de 0,5 uV, o E1 precisa de um bom front-end, especialmente quando conectado a antenas longas. De acordo com o diagrama de blocos do manual do usuário, o receptor possui filtros passa-banda em 1, 2, 4, 8, 16 e 30 MHz. O pré-amplificador (ou opção DX) é de 10 dB, de acordo com o diagrama de blocos. De acordo com as especificações, a IP3 com espaçamento de 5 kHz e pré-amplificador ligado não é algo de outro mundo: -30 dBm. Deve funcionar bem em ambientes “normais” em termos de RF.

Meu ambiente em termos de RF certamente não é normal. Ele consiste basicamente de uma transmissor do sistema Loran C em 100 kHz a 14 km com 250 kW. Também tenho o NDB “BV” em 399 kHz a 16 km de distância na mesma direção. Minhas beverages apontam mais ou menos nessas direções. Tenho um conjunto de cinco beverages conectadas a uma chave de antenas por meio de um amplificador Norton push-pull 10-13 dBe a um divisor ativo 1:8 em que o amplificador é idêntico ao primeiro, mas possui um ganho de 5 dB. Normalmente uso o divisor ativo o tempo todo e ligo o outro pré-amplificador quando os níveis de sinal caem após o pôr do sol ou antes do nascer. Os pré-amplificadores dos receptores são usados conforme necessário.

Então, qual o comportamento do front-end do E1? A estação Loran C é uma boa indicadora se o receptor for suscetível à sobrecarga. Quando ambos pré-amplificadores estão ligados há um pouco mais de ruído do Loran C abaixo de 1 MHz, entretanto, nada dramático. Se utilizar a opção “DX”, o Loran C deixará o receptor mudo, mas apenas abaixo de 1 MHz. Concluí assim que os filtros funcionam bem. Se desligar um deles (não importa qual), a sobrecarga desaparece.

Também fiz um teste na faixa de 49 metros durante a noite, período de sinais mais intensos. Usei a loop amplificada ALA100 (8 x 4 m). Ao ligar todos os pré-amplificadores, há severa intermodulação. Ao desligar qualquer um deles, o problema desaparece.

Conclusão: Use o pré-amplificador interno apenas quando realmente necessário, especialmente se estiver em um ambiente com fontes de RF intensas na região. Me considero sortudo por a Eton ter decidido colocar o primeiro filtro passa-banda em 1 MHz, e não em 1,8 ou 2. Isso limitaria a capacidade do equipamento para Dexismo em Ondas Médias. Entretanto, com o pré-amplificador desligado a sensibilidade em ondas médias ainda é próxima de 1 uV. Mesmo comparado com receptores/transceptores que custam até três vezes mais, seu rendimento é muito bom.

O E1 é um portátil com a ambição de performance igual ou superior a um receptor de comunicações. Com algumas poucas exceções, ele realmente funciona como tal, mas ao ser assim também perdeu algumas das características de um portátil. De qualquer maneira, o Eton E1 é um excelente receptor em sua categoria e funcionará muito bem na maior parte das situações de Dexismo real. Além disso, seu preço é imbatível.

Artigo traduzido mediante autorização do autor. A publicação em qualquer outro meio é expressamente proibida.


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