Organizando o DX digital

23 07 2011

Mika Mäkeläinen

Dispositivos de armazenamento digital mais baratos revolucionaram a forma que os Dexistas podem salvar, organizar e acessar suas gravações e coleções de QSLs. Entretanto, criar um arquivo digital requer decisões quanto aos formatos e nomes dos arquivos que terão muitas consequências. Este artigo mostra os vários erros que cometi e como tentei resolver problemas práticos relacionados com a decisão de migrar para o mundo digital.

A maioria dos Dexistas grava suas melhores captações, envia relatórios de recepção e coleciona confirmações de emissoras de radiodifusão. Assim sendo, muitos possuem dezenas de fitas cassete com gravações as mais diversas e mantêm seus QSLs guardados também de diversas maneiras. Mas a transição para uma coleção Dexista totalmente digital não é muito fácil – e quanto mais tempo você tiver de hobby mais complicado será digitalizar sua coleção.

Gravando o mais importante

Comecei a gravar identificações de emissoras, enviar informes de recepção e colecionar QSLs em 1980. Infelizmente, durante os anos 80 eu fiz apenas algumas poucas gravações, o que certamente foi um grande erro. Outro erro foi dar atenção apenas às captações mais raras. Muitas das emissoras internacionais de radiodifusão daquela época já não existem e eu não tenho nenhum tipo de gravação delas.

Você nunca pode gravar muito – ou pode?

Lição número um: você nunca pode gravar muita coisa. Entretanto, isso foi verdadeiro apenas até o advento dos receptores definidos por software (SDRs) – agora sim você pode gravar muita coisa, mas trataremos disso mais adiante.

Até o final dos anos 90 eu fiz minhas gravações em fita cassete. Então vieram os Minidiscs, que eu usei para gravar identificações de emissoras até 2003. Em 2003, os discos rígidos começaram a ficar baratos o suficiente de forma que pudesse começar a digitalizar minha vasta coleção de gravações de emissoras de rádio.

Pela quantidade de fitas cassete imaginei que conseguiria fazer o trabalho em umas duas semanas de trabalho em tempo integral. Ledo engano! Isso foi há quatro anos atrás e eu terminei cerca de dois terços do trabalho. Para ser honesto, o processo é complicado pelo fato de querer que meus arquivos de som digital possuam dados não tão facilmente disponíveis: então preciso consultar meus antigos logbooks para encontrar as datas exatas e horários de minhas gravações.

De qualquer forma estou bastante feliz por ter começado tal trabalho relativamente cedo – agora elas estão muito fáceis de serem acessadas. Não preciso me preocupar mais em ficar procurando em minhas fitas cassete nem mesmo para enviar follow-ups, algo que no passado consumia muito do meu tempo.

Escolhendo um formato e organizando os arquivos

O primeiro ponto a ser considerado deve ser o formato. O formato Real Media já estava em declínio quando comecei a lidar com minhas gravações enquanto o MP3 crescia em popularidade. Desde o início decidi que o formato deveria ser líder no mercado (de maneira que pudesse encontrar softwares que facilmente pudessem executar minhas gravações daqui uns 20 anos ou ao menos permitir a conversão para outro formato) e que fossem leves (para que as gravações pudessem ser enviadas por email às emissoras ou outros amigos de hobby).

Após equivocadamente ter optado pelo formato Real Media decidi usar os formatos MP3 (.mp3) e Windows Media (.wav) – passei a fazer então cada gravação em ambos formatos. Os arquivos MP3 eram usados para envio por email e os em formato Windows Media eram usados como uma cópia principal com melhor qualidade. Ainda que o tamanho dos arquivos já não seja um problema, não há necessidade de criar arquivos com tamanho maior que o necessário. A taxa de amostragem não é tão crucial pois as gravações DX são normalmente ruidosas  e como o áudio original é mono, não há necessidade de se fazer gravações em estéreo.

Os arquivos de som são organizados em diferentes pastas por continente, país e estado.

Há inúmeros softwares para gravação no mercado. Eu escolhi o Polderbits Sound Recorder and Editor, que é bastante rápido e fácil de usar. Ele possui um equalizador, alguns filtros e também funciona como um conversor entre formatos. Após o período de testes ele pode ser registrado por 30€/US$40. Eu já estou tão acostumado com o Polderbits que não conseguiria comparar objetivamente ele com outro programa concorrente, então o ideal é que você faça uma pesquisa na Internet antes de decidir pelo melhor para você.

Eu normalmente gravo a identificação da emissora, algumas vezes outros anúncios e alguma música, com um rápido aumento/diminuição no nível de áudio no início e final da gravação, respectivamente.

Um ponto crucial a ser considerado é qual o nome a ser dado aos arquivos de som. Minha idéia foi nomeá-los de forma que os mesmos nomes pudessem ser usados na Internet, tornando mais fácil seu compartilhamento – então, ao invés de espaços entre as palavras eu usei “underlines”. Parece um tanto quanto antigo, mas funciona de forma universal.

Arquivos de som (neste caso de emissoras do Alaska) organizadas automaticamente por frequência, prefixo, data e hora.

O número de arquivos só tenderá a crescer, então o melhor é você organizar tudo desde o início. Escolhi um sistema de pastas baseado em continentes no primeiro nível, então dividido em países e em alguns casos em estados. Em cada pasta de país/estado, os arquivos de som são classificados por frequência, nome da emissora/prefixo, data (ano/mês/dia) e hora (UTC). Em muitos casos tenho várias gravações da mesma emissora, e este método ajuda a manter tudo em absoluta ordem. Há pastas separadas para emissoras não identificadas. Todas as gravações ficaram extremamente acessíveis, contanto que eu lembre a frequência da emissora – e como meu foco maior é o Dexismo em Ondas Médias (AM), a tarefa é relativamente fácil.

Não estou dizendo que esta é a melhor forma de organizar arquivos e sim a forma que eu resolvi usar. Considerando a quantidade de arquivos já existentes em minhas pastas, provavelmente não mudaria nada mesmo se encontrasse um sistema melhor. Isso é algo a se considerar antes de gastar centenas de horas organizando suas gravações – a última coisa que você vai querer fazer após organizar a sua coleção é reorganizá-la.

Você também pode encontrar as coisas em um apanhado de arquivos usando uma eficiente ferramenta de busca como o Google Desktop Search, caso você tenha ao menos algo que facilite tal tarefa no nome dos arquivos. Levando em conta a minha péssima memória, o uso da estrutura acima citada é bem interessante.

Atualmente tenho cerca de 9000 gravações de identificações de mais de 3000 emissoras diferentes, então foi importante chegar a uma solução como esta.

Os receptores definidos por software (SDR) nos levaram a uma dimensão totalmente nova com relação a gravações. Por exemplo, o receptor SDR-14/SDR-IQ controlado pelo software Spectravue pode gravar uma porção de 196kHz do espectro. Uma gravação de pouco menos de 46 minutos tem como resultado um arquivo de áudio de cerca de 2 GB. Tenho mantido alguns desses arquivos mesmo após extrair as identificações de estações interessantes, pois elas permitem a você reviver as condições memoráveis de algumas DXpeditions, bem como o uso de algumas ferramentas como o notch, AGC e variações de filtros.

Como dispositivos de armazenamento não são mais algo realmente caro, pode ser tentador querer gravar tudo o que você ouvir. Entretanto, eu não creio que faria isso pois ninguém, nem mesmo eu, ouvirei todas as gravações.

Uma conexão à internet disponibilizará a você ainda mais funcionalidades. Se você possuir espaço online de armazenamento suficiente, você – ou quem você quiser – poderá acessar, imprimir e executar seus arquivos de qualquer parte do mundo. Em minhas visitas ocasionais a emissoras de rádio tem sido bem interessante poder executar suas identificações a partir da minha coleção online.

Enviando informes de recepção

Agora que você já tem a gravação daquela emissora rara devidamente nomeada e organizada, enviar um informe de recepção tornou-se uma tarefa mais fácil. Admito ter demorado a adotar o envio de informes de recepção por email, e apenas no ano passado consegui enviar a maioria dos meus informes de recepção por este meio. Também passei a incluir meu endereço de email em meus informes de recepção enviados por carta. Recebi meu primeiro QSL via email (eQSL) em 1995.

Por conta da minha nostalgia com relação a cartões e cartas QSL, durante muito tempo preferi usar o correio normal em detrimento do email e durante os anos foi crescendo também a dificuldade de entrega dos meus QSLs por correio. Na maior parte do mundo o email tornou-se um padrão para comunicação com empresas, sem contar também que é uma opção ecologicamente correta. Com o objetivo de tornar mais fácil e barato para as emissoras responderem, passei a usar o correio normal como segunda opção. Se a emissora possuir um endereço de email, esta é atualmente minha primeira opção para envio de um informe. E obviamente o envio de follow-ups ficou ainda mais fácil – caso você tenha suas gravações devidamente organizadas…

Até o momento tenho usado basicamente o mesmo modelo tanto para informes enviados por email como por carta, mas acredito que emails mais curtos funcionem melhor, então tenho tentado ser um pouco mais breve. Costumo também enviar uma foto da minha família em anexo bem como o arquivo de áudio.

Também costumo deixar os informes de recepção de forma que a possibilidade de que sejam recebidos como spam seja menor. Meu filtro anti-spam já bloqueou até mesmo eQSLs, então é provável que o mesmo possa ocasionalmente acontecer no destino dos meus informes de recepção. Baseado no critério de palavras do meu filtro anti-spam, itens comuns como designar o destinatário da mensagem como “Dear”, e incluir links da internet pode aumentar a probabilidade de que o email seja considerado spam, então você deverá adaptar-se à tal possibilidade editando seu informe de recepção conforme necessário.

Arquivando confirmações por email

Pasta de emissoras colombianas. Meu arquivo de eQSL’s consiste de vários tipos de arquivo, com as emissoras classificadas em ordem de frequência.

Inicialmente apenas arquivava todos os eQSLs em uma de minhas pastas de email. Logo passei a salvá-los em dois formatos diferentes, mesmo porque o email como realmente é acaba ficando feio em meio à coleção. O primeiro modo é no formato de arquivo .eml, certificando-se de que todos os detalhes do cabeçalho estejam incluídos – uma espécie de original. Arquivos de som em anexo, fotos, entre outros, eu salvo como arquivos separados. Após isso abro o arquivo do email e o modifico no MS Word incluindo qualquer material visual que tenha em mãos e que ajude a torná-lo mais bonito. Se o eQSL possuir um logotipo ou figura, copio e colo na versão mais caprichada do eQSL. Caso contrário verifico se a emissora possui um website e copio um logotipo, foto ou mapa de cobertura. Para encerrar, insiro um cabeçalho com o nome da emissora, cidade e frequência.

Os eQSLs são organizados em uma pasta e em uma estrutura de arquivos similar a dos arquivos de áudio citados acima. Como mais de 90% dos meus QSLs nos dias atuais chegam por email, preciso organizá-los de alguma forma. O número total de arquivos na minha coleção de eQSLs é de cerca de 2900, de umas 1000 emissoras diferentes.

Salvando para o futuro

Arquivar minha vasta coleção de cartas/cartões QSL impressos como arquivos de imagem digital é algo que pretendo fazer eventualmente mas não em um futuro próximo. Escanear tudo tomaria tanto tempo que creio que se trata de um projeto que no mínimo seria prolongado até a minha aposentadoria, embora eu realmente goste da idéia de ter uma cópia eletrônica dos QSLs originais, tanto para poder compartilhar com os amigos de hobby o que possuo como por questões de segurança. Um dos maiores benefícios do material digital é, sem dúvida, a facilidade de duplicação. Tendo em vista que a única tarefa é realmente copiar os arquivos, é bastante interessante a possibilidade de ter uma cópia de segurança de todo o disco rígido preferencialmente em outro lugar. Isso protegeria sua valiosa coleção em caso de incêndio, enchente, roubo, ou quaisquer outros tipos de ocorrências do gênero.

Além disso, tal forma de trabalho é uma maneira de salvar o que possuímos para futuras gerações. Armazenar algumas centenas de gigabytes é mais fácil que ter em mãos uma montanha de papéis. Mundo afora existe ao menos um par de iniciativas em se organizar museus de QSLs, mas para a maioria dos QSLs existentes (e que não irão para tais lugares!), sua conservação dependerá dos nossos filhos ou netos e eles podem realmente não apreciar a idéia de armazenar pilhas infindáveis de papéis com valor mais ou menos histórico. Não que as opções de armazenamento existentes nos dias atuais signifiquem dados salvos de forma permanente, mas é melhor que não fazer nada.

De qualquer maneira espero que não demore muito até que possamos ver a carreira inteira de qualquer um de nossos companheiros de hobby na Internet. O que quero dizer é que certamente haverá quem acabará disponibilizando sua coleção de QSLs e áudios não apenas para os amigos de hobby agora, mas para futuras gerações, quando as transmissões em ondas curtas forem apenas história.

Trabalho pós-aposentadoria

Infelizmente minha coleção DX eletrônica não é tão bem organizada quanto parece ser. Além de gravações, relatórios de recepção e eQSLs, seria interessante ter um banco de dados de toda a coleção de QSLs. Tenho apenas arquivos do Microsoft Word listando as emissoras confirmadas por continente e país, incluindo detalhes como frequência, prefixo e data da recepção. Eu facilmente posso encontrar quais e quantas estações confirmadas possuo de cada país e estado.

Outro grande erro: deveria ter começado isso usando o Excel ou ao menos outro software para manuseio de banco de dados. Seria interessante poder compilar estatísticas e gráficos da coleção, documentar e demonstrar tendências, entre outros dados interessantes, mas fazer este trabalho novamente certamente seria um trabalho muito pesado no momento. Mais uma tarefa para quando eu me aposentar.

Artigo traduzido mediante autorização do autor. A publicação em qualquer outro meio é expressamente proibida.

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2 responses

23 07 2011
Rama

Muito bom este artigo em gostei ,bem explicado ,sinceramente voce é um vitorioso pois tem muito material bom esem pre na pesquisa ,parabens.

http://qsldobrasil.blogspot.com/

9 09 2011
Rodrigo de Araujo

Aula de um mestre! As gravações servem para pesquisas em variadas áreas e contribuem para a preservação da memória do “Rádio Internacional”, o que é um legado e tanto. Muito bacanas os seus exemplos de organização de arquivos e pastas. Parabéns!

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